Lagostas cor-de-rosa e lulas com cara de desenho animado… cientistas encontraram 24 novas espécies no fundo do oceano

Lagostas cor-de-rosa e lulas com cara de desenho animado… cientistas encontraram 24 novas espécies no fundo do oceano

Uma expedição científica à Zona Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico central, revelou algo que os próprios pesquisadores não esperavam encontrar. Entre amostras coletadas a mais de 4.000 metros de profundidade, surgiram criaturas que parecem saídas de outro planeta — lagostas em tons pastel, anfípodes com pernas finíssimas e organismos tão diferentes de tudo já catalogado que uma família taxonômica inteiramente nova precisou ser criada para abrigá-los. A descoberta, publicada em 24 de março de 2026 na revista ZooKeys, adiciona 24 espécies inéditas ao inventário da vida marinha profunda, conforme reportado pelo ScienceDaily.

A região onde as criaturas foram encontradas é uma das mais remotas e menos exploradas do planeta. Estende-se por 6 milhões de quilômetros quadrados entre o Havaí e o México, numa escuridão perpétua onde a pressão da água esmaga quase tudo.

Ainda assim, a vida insiste em florescer ali — e de formas que a ciência sequer imaginava.

A Zona Clarion-Clipperton: um abismo quase totalmente desconhecido

Para entender a magnitude dessa descoberta, é preciso primeiro compreender o cenário. A Zona Clarion-Clipperton (ZCC) não é um simples trecho de oceano — é uma planície abissal tão vasta que caberia dentro dela praticamente toda a Europa.

Localizada a cerca de 4.000 metros abaixo da superfície, essa região permanece como um dos ecossistemas menos compreendidos da Terra. Mais de 90% das espécies que habitam a ZCC sequer receberam um nome científico até hoje.

Esse dado, por si só, já revela o tamanho do desafio. Enquanto satélites mapeiam a superfície de Marte com resolução de centímetros, menos de 5% do fundo dos nossos próprios oceanos foi explorado com equipamentos capazes de identificar vida.

A ZCC ganhou destaque nos últimos anos não apenas pela biodiversidade oculta, mas também porque seu solo abriga trilhões de dólares em nódulos polimetálicos — depósitos ricos em manganês, níquel, cobalto e cobre que atraem o interesse da mineração submarina.

Criaturas das profundezas da ZCC surpreendem pela aparência quase irreal — algumas lulas possuem olhos enormes e expressões que lembram desenhos animados (Imagem: IA/Reprodução)

Como 24 espécies totalmente desconhecidas foram encontradas de uma só vez

A história dessa descoberta começa antes mesmo da publicação do estudo. As amostras foram coletadas durante expedições realizadas em 2021, sob contratos de exploração na ZCC autorizados pela International Seabed Authority (ISA).

Contudo, coletar espécimes do fundo do oceano é apenas o primeiro passo. O trabalho mais demorado — e crucial — veio depois, quando 16 especialistas e cientistas em início de carreira se reuniram em 2024 na Universidade de Lodz, na Polônia, para um workshop intensivo de taxonomia.

Durante uma semana, o grupo analisou minuciosamente cada amostra. Liderados pela Dra. Anna Jażdżewska, da Universidade de Lodz, e pela Dra. Tammy Horton, do National Oceanography Centre (NOC) do Reino Unido, os pesquisadores compararam características morfológicas, mediram apêndices e documentaram estruturas nunca antes registradas.

O resultado superou qualquer expectativa: 24 espécies completamente novas, distribuídas em 10 famílias diferentes de anfípodes. Porém, o achado mais extraordinário não foram as espécies individuais.

Uma superfamília nova: um ramo inteiro desconhecido na árvore da vida

Entre as 24 espécies, os cientistas identificaram organismos tão distintos de qualquer grupo conhecido que uma nova superfamília taxonômica precisou ser estabelecida. Além disso, foram criados uma nova família e dois novos gêneros.

Em termos de classificação biológica, isso é extraordinário. Descobrir uma espécie nova já é relevante. Encontrar um gênero novo é raro. Mas identificar uma superfamília inteiramente desconhecida equivale a descobrir um ramo completo na árvore evolutiva que ninguém sabia existir.

Para colocar em perspectiva: a superfamília é um nível taxonômico acima da família. É como se, ao estudar um bairro desconhecido, você descobrisse não apenas casas novas, mas um tipo completamente novo de arquitetura que nunca existiu em lugar nenhum.

Esse achado sugere que as profundezas abissais abrigam linhagens evolutivas inteiras que se desenvolveram isoladas por milhões de anos, longe da luz solar e de qualquer influência dos ecossistemas de superfície.

Veículos operados remotamente (ROVs) são os olhos dos cientistas nas profundezas — seus holofotes iluminam um mundo onde a luz solar jamais chegou (Imagem: IA/Reprodução)

As criaturas e suas estratégias de sobrevivência no abismo

Os anfípodes descobertos apresentam uma diversidade morfológica impressionante. Alguns possuem pernas longas e extremamente finas, adaptadas para se deslocar sobre o sedimento macio do fundo oceânico sem afundar.

Outros desenvolveram corpos mais compactos e robustos, provavelmente como adaptação à pressão esmagadora das profundezas. A variedade de formas corporais sugere que, mesmo nesse ambiente aparentemente uniforme, existem nichos ecológicos distintos.

As estratégias alimentares também surpreenderam os pesquisadores. Enquanto algumas espécies se alimentam diretamente do sedimento — filtrando matéria orgânica que lentamente afunda da superfície —, outras possuem grandes garras que sugerem comportamento predatório.

Entre os espécimes mais notáveis está o Eperopeus vermiculatus, descrito a partir de amostras coletadas a mais de 4.000 metros de profundidade. Curiosamente, seu nome foi escolhido para homenagear tanto a morfologia vermiforme do anfípode quanto o World Register of Marine Species (WoRMS) — o banco de dados global de espécies marinhas.

Essa escolha de nomenclatura reflete algo importante: na taxonomia moderna, cada nome carrega uma história sobre a aparência, o habitat ou até mesmo as ferramentas usadas para documentar a espécie.

A corrida entre ciência e mineração submarina

A descoberta ganha urgência adicional quando consideramos o contexto industrial. A mesma Zona Clarion-Clipperton que abriga essas espécies desconhecidas é alvo de contratos de exploração mineral emitidos pela ISA.

No entanto, como os próprios pesquisadores destacam, como proteger algo que sequer sabemos que existe? Com mais de 90% da biodiversidade da ZCC ainda não catalogada, qualquer operação de mineração corre o risco de destruir espécies antes mesmo de serem descobertas.

Essa tensão entre exploração econômica e preservação científica é semelhante ao que ocorre em outros setores de recursos naturais. Da mesma forma que a construção do maior parque eólico offshore do mundo em Dogger Bank precisou considerar impactos ambientais marinhos, a mineração em águas profundas exige um inventário biológico mínimo antes de qualquer intervenção.

O problema é que esse inventário está sendo feito numa velocidade incomparavelmente menor do que o avanço dos interesses comerciais.

A diversidade de formas e cores encontrada nas profundezas desafia o que se pensava sobre a vida no fundo do oceano (Imagem: IA/Reprodução)

A iniciativa “Mil Razões” para catalogar a vida profunda

Conscientes da urgência, pesquisadores e instituições internacionais lançaram a campanha “One Thousand Reasons” — uma meta ambiciosa de descrever 1.000 novas espécies das profundezas oceânicas até o final desta década.

A iniciativa é fruto de uma parceria entre a ISA, o World Register of Marine Species (WoRMS) e a União Europeia, lançada em 2023. As 24 espécies recém-descritas representam um avanço significativo rumo a essa meta.

O projeto faz parte da Sustainable Seabed Knowledge Initiative (SSKI), que busca conciliar o conhecimento científico sobre o fundo do mar com decisões regulatórias sobre mineração submarina.

Assim como drones autônomos de 52 metros estão revolucionando a vigilância naval, a exploração das profundezas também depende cada vez mais de tecnologia robótica avançada — veículos operados remotamente (ROVs) que conseguem operar a pressões extremas.

Por que essa descoberta importa para o futuro

Cada espécie nova descrita no fundo do oceano é mais do que uma curiosidade taxonômica. É uma peça de um quebra-cabeça evolutivo que pode conter informações valiosas sobre adaptação a condições extremas, bioquímica única e até potenciais aplicações farmacêuticas.

Organismos que sobrevivem a 4.000 metros de profundidade desenvolveram proteínas, enzimas e mecanismos celulares que simplesmente não existem em nenhum outro ambiente do planeta. Essas adaptações biológicas podem, no futuro, ter aplicações em biotecnologia e medicina.

Além disso, compreender a biodiversidade abissal é essencial para avaliar os impactos reais da mineração submarina — uma indústria que pode movimentar bilhões de dólares nas próximas décadas, alimentando a demanda global por metais para baterias e eletrônicos.

Os anfípodes, em particular, são considerados indicadores ecológicos fundamentais. Sua presença — ou ausência — pode revelar a saúde de um ecossistema inteiro.

Conforme sintetizou a equipe de pesquisa: “Com mais de 90% das espécies na ZCC ainda sem nomenclatura, cada espécie descrita é um passo vital para melhorar nossa compreensão deste fascinante ecossistema.”

O estudo completo foi publicado em acesso aberto na revista ZooKeys, permitindo que pesquisadores de qualquer país acessem os dados sem barreiras.

Ressalva: o estudo foi financiado por contratos ligados à exploração mineral da ZCC. Embora os pesquisadores declarem que os financiadores não influenciaram os dados ou interpretações, essa conexão merece atenção no contexto do debate sobre mineração submarina.

Este conteúdo foi produzido com apoio de inteligência artificial e revisão editorial humana, em conformidade com as diretrizes do Click Petróleo e Gás.

FONTE: CLICKPETROLEOEGAS

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