Tilápia deve levar Brasil ao top 3 global até 2030
Expansão da produção, abertura de mercados e avanço industrial sustentam projeção de crescimento da piscicultura brasileira.
Nos últimos 10 anos, a piscicultura brasileira cresceu 58,6% e, em 2025, atingiu pela primeira vez a marca histórica de 1,01milhão de toneladas produzidas, tornando o Brasil o maior produtor de peixes de cultivo das Américas. No mesmo período, a produção de tilápia cresceu 148,2%, reforçando o protagonismo da espécie no país. “A piscicultura deixou de ser uma promessa para se tornar protagonista nas Américas, com ganhos expressivos em produtividade, tecnologia e competitividade”, salienta o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros.
De acordo com o dirigente, a meta do Brasil é alcançar a liderança global na produção de peixes de cultivo até 2040. “Esse objetivo será alcançado por meio de investimentos em genética, nutrição, manejo, equipamentos, sanidade, produção, processamento e, principalmente, comercialização nos mercados interno e externo”, afirma.

Presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros: “Estamos entrando nos anos de ouro da tilapicultura nacional. Não é um caminho sem desafios, mas é um período com mais oportunidades para quem estiver preparado” – Divulgação/Peixe BR
A tilápia responde por 70% do peixe cultivado no País, sendo a proteína que mais cresceu na última década, com expansão superior a 10% ao ano, acima de suínos, aves, bovinos, leite e ovos. “Esse resultado é mérito de toda a cadeia produtiva”, celebra Medeiros.
Em 2025, foram produzidas 707.495 mil toneladas da espécie, alta de 6,83% em relação ao ano anterior. Já os peixes nativos somaram 257.070 toneladas, com leve recuo de 0,63%. Para 2026 a expectativa é manter estabilidade na produção.
O Paraná lidera a produção nacional, com 273,1 mil toneladas em 2025, crescimento de 9,1% na comparação anual. “Esse movimento vindo de empresas privadas e cooperativas mostram a força do setor no Paraná. São diversos os fatores que contribuem para o desenvolvimento da atividade que vêm se repetindo nos últimos anos, como agregação de tecnologia, orientação técnica e a participação de grandes cooperativas e agroindústrias”, ressalta o presidente da Peixe BR.
Na sequência aparecem São Paulo, com 93,7 mil toneladas, aumento de 54% em relação ao ano anterior; Minas Gerais, com 77,5 mil toneladas, alta de 6,46%; Santa Catarina, com 63,4 mil toneladas, crescimento de 7,28%; e Maranhão, com 59,6 mil toneladas, o que representa desempenho 9,36% maior que em 2025. E o Ceará registrou aumento de 29,3% na produção e subiu para a 18ª posição no ranking nacional.
A região Sul concentra a maior produção, com 360,8 mil toneladas, seguido pelo Sudeste, com 195,6 mil toneladas, e Nordeste, com 193,7 mil toneladas. Norte e Centro-Oeste completam o ranking, com 141,1 mil e 120,1 mil toneladas, respectivamente. “Para manter a tilapicultura brasileira nesse ciclo virtuoso é fundamental continuar o processo de evolução da cadeia produtiva e do atendimento ao consumidor final, abrir novos mercados internacionais para ampliar e diversificar as possibilidades de exportação, além de fortalecer ainda mais as relações comerciais, institucionais e governamentais do setor”, enfatizou Medeiros.
Diferença de até R$ 1,48 por quilo

Os preços pagos ao produtor seguem com variações regionais. Em janeiro de 2026, os valores oscilaram entre R$ 8,76/kg e R$ 10,11/kg nas principais praças. O maior preço foi registrado no Norte do Paraná e o menor no Oeste do estado.
Em abril, o preço médio nacional chegou a R$ 9,91/kg, com cotações entre R$ 8,98/kg e R$ 10,46/kg. “Fatores como oferta local, custos de produção, escala e acesso a mercado influenciam diretamente a formação das cotações. Ao mesmo tempo, produtores acompanham com atenção o aumento das importações de tilápia, que pode pressionar os preços internos e alterar a dinâmica de comercialização nos próximos meses”, relata Medeiros.
Recuo das exportações
As exportações brasileiras de piscicultura somaram US$ 60 milhões em 2025, com alta de 2% em valor e queda de 1% em volume, passando de 13.792 toneladas em 2024 para 13.684 toneladas. A tilápia concentrou 94% das vendas externas, seguida por espécies como tambaqui e curimatás.
O Paraná permaneceu como principal exportador de tilápia do país, responsável por 50% do total embarcado, com receita de US$ 28 milhões; enquanto São Paulo representou 29% e gerou receita de US$ 16 milhões, seguido por Mato Grosso do Sul, com US$ 10,7 milhões, o equivalente a 19% das exportações brasileiras.

Foto: Divulgação/C.Vale
Mesmo com a elevação de tarifas, os Estados Unidos seguiram como principal destino em 2025, absorvendo 87% das exportações da piscicultura nacional, o equivalente a US$ 52 milhões. Canadá e Peru responderam por 4% cada, enquanto China e Vietnã tiveram participações menores. Ao longo do ano, o Brasil abriu 21 novos mercados, entre eles o México, segundo maior importador de tilápia nas Américas.
No primeiro trimestre de 2026, porém, houve retração. As vendas externas caíram para US$ 11,2 milhões, redução de 39% frente aos US$ 18,5 milhões registrados no mesmo período de 2025. Em volume, a queda foi de 41%, passando de 3,9 mil toneladas para 2,3 mil toneladas.
A redução das tarifas de importação pelos Estados Unidos no fim de fevereiro, de 50% para 10%, trouxe uma reação parcial do mercado. Em março, os embarques voltaram a crescer e atingiram 1.006 toneladas, com receita de US$ 5,1 milhões, puxados principalmente pelos filés frescos de tilápia. “O tarifaço nos trouxe como lição a necessidade de abrir novos mercados, especialmente na América Latina, que importa cerca de 200 mil toneladas por ano e não compra produto brasileiro”, evidenciou Medeiros.
O que o país exportou
Mesmo com queda nas exportações, a tilápia seguiu liderando as vendas externas, com faturamento de US$ 10,2 milhões no primeiro trimestre. Na sequência, o pacu somou US$ 376 mil, com crescimento de 2%, enquanto os surubins registraram alta de 1.689% a partir de uma base baixa.
Entre os produtos mais exportados, os filés frescos ou refrigerados responderam por 78% das vendas externas no período, com US$ 8,8 milhões, com participação de 86% no valor total exportado, apesar da queda de 32% na comparação anual. Em contrapartida, as exportações de filés congelados caíram 76%, somando US$ 143 mil; enquanto os peixes inteiros congelados recuaram 61%, totalizando receita de US$ 1,6 milhão.

O mercado norte-americano continua como principal destino, responsável por 78% das compras no início de 2026. No entanto, o Brasil perdeu espaço após a elevação das tarifas, caindo da terceira para a sétima posição entre os fornecedores. Já as vendas para o Canadá cresceram 51%, atingindo US$ 534 mil, enquanto o México voltou a comprar, gerando uma receita de US$ 319 mil, crescimento de 110% entre fevereiro e março.
A tilápia continua como único produto exportado para Estados Unidos, Canadá, México e Japão. Já no caso do Peru, as vendas seguem concentradas em peixes nativos, com destaque para o pacu. Entre os demais produtos, a tilápia inteira congelada ocupou a segunda posição, com US$ 773 mil e recuo de 73%. O filé congelado foi o único item a registrar crescimento em valor, com alta de 12% e cotação média de US$ 7,25/kg. Já subprodutos e tilápia inteira congelada apresentaram quedas de 14% e 16%, respectivamente.
No segmento de filé fresco, o Brasil embarcou 440 toneladas no período, queda de 57%, a maior entre os principais produtos exportadores. Países como Honduras e Indonésia ampliaram participação, com crescimentos de 50% e 96%, respectivamente.
Estados exportadores

Foto: Jonathan Campos
Entre os principais estados exportadores, o Paraná exportou US$ 3,9 milhões no trimestre, contudo sua participação vem diminuindo, passando de 80% no primeiro trimestre de 2024 para 49% em 2025 e agora 38% em 2026. São Paulo alcançou 31% das exportações, seguido por Mato Grosso do Sul, que atingiu 30%.
As exportações dos estados seguem concentradas em produtos de maior valor agregado. No Paraná, os filés frescos representaram 78% dos embarques, seguidos pela tilápia inteira congelada, com 17%, embora ambas as categorias tenham registrado queda. Em São Paulo e Mato Grosso do Sul, os filés frescos também predominam, enquanto a Bahia se destaca pela exportação de tilápia inteira congelada.
Crescimento internacional

Foto: Jonathan Campos
De acordo com Medeiros, o setor projetava encerrar 2025 como maior exportador de filés de tilápia para os Estados Unidos, superando a Colômbia. À época, o Brasil ocupava a quarta posição. A elevação das tarifas, porém, interrompeu esse movimento, que deve ser retomado ao longo deste ano.
Para o dirigente, a expansão internacional da tilápia brasileira depende do crescimento sustentado da produção e da diversificação de destinos. “A abertura de novos mercados está ligada à capacidade de aumentar a oferta com regularidade e qualidade”, afirmou.
Nesse contexto, países como México e Canadá passaram a ganhar relevância. A entrada nesses mercados é vista como parte de uma estratégia para reduzir a dependência dos Estados Unidos, que ainda concentram a maior parte das compras externas da tilápia brasileira. “A América Latina aparece como eixo prioritário nessa reconfiguração. O México, em especial, é considerado mercado-chave. O país importa cerca de 92 mil toneladas de tilápia por ano, mais da metade do volume adquirido pelos Estados Unidos. É um mercado que começou a ser explorado pelo Brasil recentemente, ainda com volumes modestos, mas com grande potencial de crescimento”, frisou Medeiros, citando ainda Colômbia e Peru como alternativas, tanto pelo volume de importação quanto pela vantagem logística em relação a fornecedores asiáticos.
Acordo Mercosul-União Europeia
A perspectiva de novos mercados ganhou ainda mais relevância com o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que de forma provisória começou a vigorar a partir de 1º de maio. A tilápia foi incluída na Categoria 0, o que elimina tarifas de importação entre 7,5% e 9% já no início da vigência, sem aplicação de cotas.

Na prática, a medida reduz o custo de entrada do produto brasileiro no mercado europeu em quase 10%, o que pode ser convertido em preços mais competitivos ou em ganho de margem para exportadores. O acordo também coloca o Brasil em condições equivalentes às de concorrentes que já possuem tratados com a União Europeia, como Vietnã e países da América Central.
Do ponto de vista sanitário, o acordo não derruba automaticamente o bloqueio vigente desde 2017, mas cria instrumentos jurídicos para um futuro desbloqueio. Entre eles estão o reconhecimento do pre-listing, que reduz a necessidade de inspeções individuais, e o princípio da regionalização sanitária, que evita a suspensão de embarques de todo o país por problemas pontuais. “É uma janela de médio e longo prazo para ampliar mercados, tanto para a tilápia quanto para espécies nativas. Trata-se de um mercado exigente e seletivo, mas que, com certeza, vai nos impulsionar para frente, tanto em produção quanto em qualidade”, ressaltou.
Neste cenário, Medeiros projeta que o Brasil poderá alcançar a terceira posição entre os maiores produtores globais de tilápia até 2030, avançar para o segundo lugar na sequência e assumir a liderança mundial na década seguinte. “Estamos entrando nos anos de ouro da tilapicultura nacional. Não é um caminho sem desafios, mas é um período com mais oportunidades para quem estiver preparado”, reforçou o dirigente.
Limitações estruturais

Foto: Jonathan Campos
No entanto, mesmo com essas perspectivas, o setor enfrenta limitações estruturais. Atualmente, o principal gargalo está na indústria de processamento. O Brasil exporta predominantemente filé fresco, produto de maior valor agregado, porém com menor escala.
No mercado internacional, o volume está concentrado em filés congelados, segmento dominado por países asiáticos. Nos primeiros três meses deste ano, houve crescimento de 12% sobre o mesmo período de 2025 das exportações brasileiras desse tipo de produto. “A competitividade no filé congelado pode mudar o posicionamento do Brasil no mercado internacional”, prevê Medeiros, apontando a flexibilização de normas industriais como um fator decisivo para essa transição. “Diferente dos avanços na produção, que demandam ciclos mais longos, ajustes industriais podem gerar resultados em prazo mais curto. A diferença competitiva dos asiáticos está mais na eficiência industrial do que na produção primária. É isso que o Brasil precisa ajustar para disputar mercados de maior volume”, avalia.
Importações ampliam desequilíbrio
O crescimento das compras externas reforça a mudança na dinâmica comercial da piscicultura brasileira. No primeiro trimestre de 2026, as importações de espécies aquícolas somaram US$ 328 milhões. O salmão respondeu por 79% desse total, enquanto o pangasius ocupou a segunda posição, com US$ 52 milhões.
A tilápia aparece na terceira colocação entre as espécies importadas, com US$ 14,6 milhões no período. O valor supera toda a exportação da piscicultura brasileira no trimestre, que totalizou US$ 11,2 milhões, evidenciando um déficit comercial de US$ 3,4 milhões.

Foto: Claudio Neves
Até o fim de 2025, as compras estavam concentradas em Santa Catarina e São Paulo. A partir de fevereiro, Minas Gerais e Rio de Janeiro passaram a importar, seguidos por Pernambuco e Maranhão em março, indicando expansão da presença do pescado estrangeiro no mercado nacional.
O valor médio FOB dos filés de tilápia importados do Vietnã foi de US$ 4,09/kg no trimestre, equivalente a cerca de R$ 21,51/kg, sem considerar frete e seguro. Entre os estados, o Maranhão registrou o maior preço médio, de US$ 4,47/kg, aproximadamente R$ 23,38/kg; enquanto Santa Catarina apresentou um dos menores valores, na faixa de US$ 4,19/kg, cerca de R$ 22,03/kg.
A diferença entre os preços do produto importado e o custo de produção nacional sustenta a preocupação do setor. “Mesmo sem considerar despesas adicionais, como frete e seguro, o pescado estrangeiro entra no país com valores competitivos, beneficiado por subsídios na origem e, em alguns casos, por incentivos fiscais no destino”, relata Medeiros.
Risco sanitário
Além da pressão sobre as cotações internas, o setor aponta riscos sanitários. Entre as principais preocupações está a possibilidade de entrada do vírus TiLV, ainda não registrado no Brasil, mas associado a perdas expressivas em outros países produtores. “A introdução de novos patógenos poderia ampliar os desafios já existentes na tilapicultura, especialmente em um cenário de intensificação produtiva”, salientou Medeiros, enfatizando: “O aumento das importações, somado à volatilidade de preços e aos custos de produção, tende a exigir maior coordenação entre indústria, produtores e governo ao longo de 2026. O objetivo é preservar a competitividade da produção nacional e mitigar riscos sanitários em um setor que mantém trajetória de crescimento, mas enfrenta um ambiente de maior pressão externa”.
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