Sistemas multitróficos podem ampliar eficiência na aquicultura brasileira

Sistemas multitróficos podem ampliar eficiência na aquicultura brasileira

Em entrevista exclusiva, professor Eduardo Ballester explica como a integração de diferentes organismos aquáticos pode melhorar o aproveitamento de nutrientes, reduzir impactos ambientais e aproximar a produção aquícola de modelos ainda mais sustentáveis.

A aquicultura brasileira discute alternativas para produzir mais com melhor aproveitamento dos recursos naturais, menor desperdício de nutrientes e maior controle ambiental dos sistemas de criação. Um dos caminhos em debate é o uso de sistemas multitróficos, modelo que integra diferentes organismos aquáticos em uma mesma unidade produtiva, permitindo que resíduos de uma espécie sejam aproveitados por outra dentro do próprio sistema.

Eduardo Ballester, biólogo, mestre em Aquicultura, doutor em Oceanografia Biológica, professor Eduardo Ballester, diretor do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Aquicultura Sustentável (NPDA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Foto: Arquivo pessoal

Entre os especialistas que acompanham o avanço desse modelo está o biólogo, mestre em Aquicultura, doutor em Oceanografia Biológica, professor Eduardo Ballester, diretor do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Aquicultura Sustentável (NPDA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que concedeu entrevista exclusiva sobre o assunto. Na conversa, ele explica o conceito de sistemas multitróficos, detalha como esse arranjo produtivo pode ser aplicado na piscicultura e em outras cadeias aquícolas, aponta os principais entraves para adoção em escala comercial e avalia o papel da pesquisa, da extensão e da transferência de tecnologia para aproximar o tema dos produtores.

O Presente Rural – Para o produtor e para o leitor que ainda não está familiarizado com o tema, o que é um sistema multitrófico na aquicultura?

Eduardo Ballester – Sistemas multitróficos são aqueles onde produzimos diversos organismos, que tem hábitos alimentares e distribuição ecológica diferente, em conjunto. Em aquicultura os mais comuns são os chamados policultivos onde produzimos diferentes espécies de peixes e crustáceos em um mesmo viveiro, mas também podemos ter sistemas mais complexos onde entram até mesmo animais terrestres que produzem resíduos que podem ser aproveitados para a fertilização dos viveiros e vegetais que aproveitam os efluentes da aquicultura como fertilizantes e também.

O Presente Rural – Qual é a lógica biológica e produtiva por trás desse tipo de sistema? Em outras palavras, como ele funciona na prática dentro de uma propriedade?

Eduardo Ballester – A grande vantagem dos sistemas multitróficos é o aumento da produtividade dentro de uma mesma área e o aproveitamento dos recursos disponibilizados de forma mais eficiente. Por exemplo, em um policultivo, onde produzimos tilápias e camarões, os crustáceos aproveitam as sobras de ração e resíduos orgânicos gerados pelos peixes para o seu crescimento. Em contrapartida, a remoção destes resíduos contribui para a melhoria da qualidade de água, beneficiando os peixes. Além disso, no mesmo viveiro temos um aumento da biomassa produzida, que gera maior lucratividade ao produtor e diminui os impactos ambientais da produção.

O Presente Rural – Por que os sistemas multitróficos têm chamado atenção da pesquisa e do setor aquícola? Onde está o principal potencial desse modelo?

Eduardo Ballester – A importância destes sistemas reside no fato de que precisamos produzir de forma mais eficiente, aproveitando melhor os insumos utilizados, principalmente a ração, que representa o principal custo da produção. Além disso, também é preciso utilizar os recursos hídricos de forma mais eficiente e procurar reduzir ao máximo os impactos ambientais gerados pela atividade. Os sistemas multitróficos nos possibilitam abordar todas estas questões simultaneamente.

O melhor aproveitamento dos insumos, a maior eficiência no uso da água e a geração menor de efluentes e efluentes com características menos nocivas ao ambiente seriam as principais contribuições em termos ambientais. Em termos econômicos, a aplicação de conceitos da economia circular, dentro da propriedade e do ambiente de produção, por meio do uso de espécies que geram benefícios mútuos é um fator fundamental. Nos sistemas multitróficos podemos produzir mais e melhor usando recursos compartilhados pelas espécies utilizadas.

O Presente Rural – Em que estágio o Brasil está hoje quando se fala em sistemas multitróficos na aquicultura? Estamos mais no campo da pesquisa, das experiências-piloto ou já há casos com perspectiva comercial?

Eduardo Ballester – No Brasil a aquicultura vem crescendo de forma vertiginosa nos últimos 10-15 anos, entretanto, os principais sistemas produtivos utilizados são os monocultivos, aqueles em que a intenção é produzir uma única espécie, como as tilápis e camarões marinhos. Em termos de pesquisa, temos diversas alternativas viáveis sendo demonstradas e algumas experiências em pequena escala, mas ainda precisamos levar isso com mais força para o setor comercial.

O Presente Rural – Quais são os maiores desafios para transformar os sistemas multitróficos em uma alternativa mais presente na aquicultura brasileira?

Eduardo Ballester – Acredito que o principal desafio é sair da zona de conforto que os monocultivos proporcionam. Explico: nos monocultivos o produtor se preocupa com a produção e comercialização apenas de uma espécie. Além disso, muitas vezes existe todo um suporte técnico para esta produção, o que, na prática, facilita muito a vida do produtor. Entretanto, conforme abordamos, a eficiência produtiva e econômica dos sistemas de monocultivo é menor e ainda o potencial de causar impactos ao ambiente é maior, por isso precisamos cada vez mais olhar para os sistemas multitróficos como uma alternativa.

O Presente Rural – Olhando para os próximos anos, o senhor acredita que esse modelo tende a ganhar espaço no país? O que precisa acontecer para isso?

Eduardo Ballester – A principal razão que deve motivar a implementação de sistemas multitróficos é a pressão que os impactos ambientais causados pelos sistemas convencionais acaba gerando. A escassez de recursos hídricos, os custos cada vez maiores com rações e outros insumos servem como motivação para utilizarmos sistemas mais eficientes e ambientalmente amigáveis. Acredito que isto deve mudar bastante a maneira como produzimos organismos aquáticos nos próximos anos.

A versão digital do jornal de Aquicultura é gratuita e pode ser acessada na íntegra clicando aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

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