As três potências petrolíferas que formam um novo bloco energético da América Latina
Segundo estimativas divulgadas pela IntelliNews, as receitas adicionais do setor de hidrocarbonetos para os exportadores sul-americanos podem chegar a US$ 43 bilhões em 2026, o que eleva a América Latina à posição de novo bloco energético em potencial
Com a invasão da Rússia à Ucrânia, em 2022, e as sanções internacionais sobre a produção russa de hidrocarbonetos — uma das mais significativas do mundo, essencial para o abastecimento energético da Europa —, iniciou-se uma reconfiguração da demanda energética global e abriu-se uma janela estratégica para a América Latina.
Agora, com a crise persistente no Estreito de Ormuz e o ataque dos EUA às maiores cadeias de abastecimento do Oriente Médio, um novo bloco energético pode se consolidar como alternativa no continente latino-americano.
O bloco em questão seria formado pelos três países com maiores potenciais de exploração e infraestrutura do setor de hidrocarbonetos: Brasil, Argentina e Venezuela, cujo mercado passou por uma abertura recente ao capital estrangeiro após a invasão dos EUA e a captura de seu líder de Estado.
A Venezuela é, atualmente, um dos países com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. O potencial do país está estimado em cerca de 303 bilhões de barris, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
A maior parte se concentra na Faixa do Orinoco, território na faixa sul da bacia do rio Orinoco que abrange cerca de 55.314 km².
Lá, empreendimentos liderados por multinacionais do setor petrolífero, como Chevron, Repsol e Eni, têm sido ampliados com novos contratos internacionais possibilitados pela abertura estatal à coparticipação.
O Brasil, que está entre os 10 maiores produtores mundiais de petróleo, não é dono das maiores reservas absolutas, mas tem fatores estruturais essenciais para possibilitar a produção em larga escala, que vão de estabilidade institucional a tecnologias avançadas de extração.
Em 2025, o país atingiu 17,488 bilhões de barris de petróleo em reservas provadas, 3,84% a mais do que no ano anterior, e o volume total entre as reservas provadas, prováveis e possíveis já soma 28,877 bilhões de barris.
A Petrobras é responsável por boa parte das operações de extração, com 12,1 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) em reservas provadas (84% petróleo e 16% gás).
Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o país já ultrapassou a marca de 4 milhões de barris de óleo equivalente por dia, e o pré-sal se tornou uma das fronteiras mais produtivas do mundo.
A Argentina entra nesse arranjo como uma potência emergente, ancorada na formação de Vaca Muerta, considerada a segunda maior reserva mundial de gás e petróleo de xisto (hidrocarbonetos aprisionados em rochas sedimentares de baixa permeabilidade e em grandes profundidades).
São cerca de 16 bilhões de barris de petróleo e 308 trilhões de pés cúbicos de gás de produção estimados. O país já tem contratos de fornecimento do gás de Vaca Muerta com o Brasil, a fim de substituir o GNL (gás natural liquefeito), cujo custo de transporte é superior e requer logísticas mais complexas.
Com a crise do Estreito de Ormuz, por onde passa 80% do fluxo de petróleo responsável por abastecer a Ásia, a demanda mundial foi ampliada para fornecedores de fora do Oriente Médio, apesar das rotas mais longas e dos contratos mais caros de importação.
Fluxos de petróleo para a Ásia vindos de fora do Golfo quase dobraram desde fevereiro, movimento que se soma ao reposicionamento do bloco europeu, cada vez mais desvinculado das importações russas e em busca de novos fornecedores no Atlântico.
Segundo estimativas divulgadas pela IntelliNews, as receitas adicionais do setor de hidrocarbonetos para os exportadores sul-americanos podem chegar a US$ 43 bilhões em 2026, o que eleva a América Latina à posição de novo bloco energético em potencial.
O FMI ajustou, de acordo com o cenário, as expectativas de crescimento para o Brasil em 2026, que foram de 1,6% para 1,9%. A melhora esteve diretamente associada ao desempenho das exportações de petróleo.
No curto prazo, a demanda por novos fornecedores tem contribuído para o cenário de inflação geral, com o preço do petróleo cru de tipo Brent atingindo níveis históricos (próximos a US$ 119, enquanto a média anterior variava entre US$ 40 e US$ 75).
No longo prazo, no entanto, pode haver tendências estruturais, com uma possível perda do monopólio logístico do Golfo Árabe. Um desses desenvolvimentos é o anúncio da saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), justificada como forma de “proteger o interesse nacional”.
A OPEP, inicialmente formada por 13 nações — entre elas o Irã, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Kuwait —, tentava coordenar as políticas sobre o mercado de petróleo entre seus membros, que concentravam, juntos, cerca de 82% de todas as reservas de petróleo comprovadas do mundo.
A desestruturação do bloco sugere uma nova configuração global do mercado de petróleo, com disputas mais acirradas pelas cotas de produção e foco maior em ganhos de mercado, e pode transformar a logística internacional do setor.
A América Latina resta no centro desses novos desenvolvimentos, e o maior empecilho talvez seja logístico: as cadeias de fornecimento árabes para as maiores economias do mundo, como China e Índia, eram feitas por canais mais diretos e menos custosos, enquanto o concentrado da produção offshore brasileira exige dutos submarinos complexos ou rotas longas de navio, com fretes mais caros.
O mesmo cenário se estende para a Venezuela, que opera sobretudo com produção estrangeira e exporta petróleo bruto para EUA e China. Na Argentina, o mais incipiente dos produtores regionais, a estrutura ainda tem baixa capacidade instalada de GNL para exportação e projetos em fase inicial de desenvolvimento.