Uma cidade de Rio de Janeiro onde 403 casas têm nomes de canções na fachada desde o Império e já produziu 75% do café do mundo

Uma cidade de Rio de Janeiro onde 403 casas têm nomes de canções na fachada desde o Império e já produziu 75% do café do mundo

Valença detém uma das maiores concentrações de fazendas históricas do Brasil, herança do período em que o Vale do Paraíba foi o centro econômico do país. / Imagem ilustrativa

A 148 km do Rio de Janeiro, Valença guarda no distrito de Conservatória uma tradição única no Brasil: cada morador escolhe uma música e prega uma placa na parede de casa. Nos fins de semana, seresteiros passam cantando exatamente a canção que cada placa aponta.

A tradição criada por dois irmãos que virou identidade

O projeto Em Cada Casa uma Canção nasceu em 1960, idealizado pelos irmãos José Borges e Joubert de Freitas. A ideia era perpetuar as antigas canções de amor entre os moradores do distrito, e a resposta veio em forma de placas metálicas com título e autoria.

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Valença, a última das 403 placas foi colocada em 2003, encerrando o ciclo após o falecimento de José Borges. As serenatas acontecem às sextas e sábados a partir das 23h e os grupos param exatamente diante da residência da canção que vão tocar.

Valença é reconhecida como capital do queijo no Rio de Janeiro. / Imagem ilustrativa

Quem foram os barões que construíram a cidade?

Valença nasceu oficialmente em 1823 às margens do Rio Paraíba do Sul, em terras que antes abrigavam os índios Coroados. Em meio ao ciclo do café no século XIX, tornou-se uma das mais ricas da província fluminense e ganhou o apelido de Cidade dos Barões.

O dinheiro do café moldou o casario colonial que ainda resiste no centro. As praças Jardim de Cima e Jardim de Baixo foram inauguradas em 1884, projetadas pelo paisagista francês Auguste Glaziou, o mesmo nome por trás do Campo de Santana e do Passeio Público na capital.

Valença preserva a rica herança do Vale do Café e da cultura quilombola no Rio de Janeiro. O vídeo é do canal De fora em Juiz de Fora, com 100 mil inscritos, e apresenta a Catedral de Nossa Senhora da Glória, o Jardim de Baixo e fazendas históricas:

O que fazer entre a sede e o distrito de Conservatória?

A maior parte dos roteiros gira entre o centro histórico de Valença e o vilarejo de Conservatória, a 34 km da sede. As fazendas imperiais abertas à visitação completam o passeio e remontam o cotidiano dos tempos do café.

Casa de Cultura de Conservatória: museu da seresta e palco fixo das apresentações noturnas de violão e cavaquinho.

Fazenda Florença: fundada no século XIX pela família Teixeira Leite, voltou a plantar café recentemente e faz tour guiado com degustação do produto local.

Túnel que Chora: escavado por mão escrava no século XIX para a ferrovia, escorre água o ano inteiro e dá passagem à entrada de Conservatória.

Catedral de Nossa Senhora da Glória: em estilo neogótico, é o ponto de encontro da sede, ao lado das praças projetadas por Glaziou.

Como participar das serenatas nos fins de semana?

As apresentações são gratuitas e públicas. Os seresteiros saem da Casa de Cultura e percorrem a Travessa Professora Geralda Fonseca, a famosa Rua do Meio, parando diante das placas. Aos domingos de manhã, a Solarata leva a música para as ruas sob o sol.

O repertório mistura sambas-canção, chorinhos e bossa nova. Comerciantes locais batizaram lojas e restaurantes com nomes de músicas famosas, como Sonho Meu e Lua Branca, em uma brincadeira que só faz sentido ali.

Sabores mineiros e fluminenses no Vale do Café

A cozinha do Vale mistura tradição mineira e raízes rurais do sul fluminense. Os restaurantes ficam nas fazendas, nas pousadas de Conservatória e nos casarões do centro de Valença.

  • Café Florença: grão torrado na própria fazenda, vendido em pacotes e servido no café da manhã das pousadas locais.
  • Tutu à mineira: feijão batido com farinha de mandioca, servido com linguiça e couve refogada.
  • Doces de tacho: goiabada cascão, doce de leite e geleias caseiras vendidos nas feiras dos distritos.

Qual a melhor época para ouvir as serestas?

O clima ameno de montanha faz do sul fluminense um destino de fim de semana o ano inteiro. Os meses mais secos são os mais procurados, mas a neblina das manhãs frias tem charme próprio.

emperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à Cidade dos Barões?

Valença fica a 148 km do Rio pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116), com saída em Piraí e acesso pela RJ-145 via Barra do Piraí. O trajeto leva cerca de 2h30 de carro. Há linhas de ônibus da empresa Útil saindo da Rodoviária Novo Rio. De Valença para Conservatória são mais 34 km pela RJ-137.

Vá ouvir as canções que moram nas fachadas

Valença oferece um passeio que não se encontra em outro canto do Brasil: um vilarejo inteiro em que a música de amor virou endereço. Fazendas de café, praças francesas e serenatas ao violão cabem no mesmo roteiro.

Você precisa conhecer Valença e sentir o que é parar diante de uma placa e ouvir a música que mora ali há décadas.

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