Tilápia vietnamita ganha espaço no Brasil e acende alerta vermelho entre piscicultores de Pernambuco
No Nordeste, Pernambuco produz anualmente 31,7 mil toneladas do pescado, gerando um valor bruto de produção de R$ 415 milhões. Foto: MPA/Reprodução
Por Grok | 18 de abril de 2026
A tilápia produzida no Vietnã está chegando com força ao mercado brasileiro em 2026 e já causa preocupação na cadeia produtiva nacional. Apenas no primeiro bimestre deste ano, o Brasil importou 1,6 mil toneladas do pescado asiático, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O volume, combinado com preços bem mais baixos que os da produção local, pressiona especialmente os produtores de Pernambuco, quinto maior polo de tilápia do país e líder no Nordeste.
Em fevereiro, só o estado de Minas Gerais registrou a entrada de 122 toneladas do produto vietnamita. O filé importado chega ao Brasil com valores entre R$ 25 e R$ 29 o quilo — patamar considerado agressivo, pois se aproxima ou até ameaça o custo de produção das indústrias nacionais. O cenário lembra crises recentes vividas por outros setores, como o leite em pó e o morango importado, onde a concorrência externa desequilibrou as margens dos produtores brasileiros.
Pernambuco produz anualmente cerca de 31,7 mil toneladas de tilápia, gerando um valor bruto de produção de aproximadamente R$ 415 milhões. O município de Jatobá, no Sertão pernambucano, se destaca como o terceiro maior polo produtor do Brasil. Apesar da escala, grande parte da produção local ainda é comercializada em feiras livres e peixarias regionais, o que tem amortecido, por enquanto, o impacto direto das importações.
“Estamos acompanhando as notícias e estamos preocupados. Por enquanto, ainda não sentimos o impacto porque 90% da nossa produção vai para as feiras livres e peixarias”, afirma o padre Pier Antônio Miglio, que atua como uma espécie de mentor técnico para associações de piscicultores ligadas à Diocese de Floresta. Ele ressalta, porém, que a burocracia excessiva — licenças, outorgas e permissões — já representa um entrave maior para muitos pequenos produtores do que a própria concorrência externa.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe) vai além e cobra condições equitativas de mercado. “Defendemos medidas de defesa comercial e sanitária, além de políticas públicas que garantam segurança jurídica e valorizem a produção local, essencial para a geração de emprego e renda no interior do estado”, afirma o presidente Pio Guerra.
Entre as principais preocupações estão os riscos sanitários. A entrada de patógenos exóticos, como o vírus TiLV (Tilapia Lake Virus), poderia comprometer o status sanitário da piscicultura brasileira. A Faepe e entidades como a Peixe BR alertam para a fragilidade regulatória que permite a entrada de produto com custos de produção mais baixos, muitas vezes apoiados por subsídios governamentais no país de origem.
Governo estadual reage com investimentos
Diante do cenário, o governo de Pernambuco tem buscado fortalecer a base produtiva. A Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Agricultura, Pecuária e Pesca (SDA) anunciou R$ 2 milhões já destravados para a reestruturação e modernização da Estação de Piscicultura de Serra Talhada, em parceria com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). O projeto inclui expansão da capacidade de produção de alevinos.
O Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) também atua na linha de frente, com plano de atender até 10 mil agricultores e aquicultores familiares, fornecendo anualmente 10 milhões de formas jovens de organismos aquáticos.
Outra iniciativa promissora é a implantação de uma bioindústria em Floresta, focada no aproveitamento integral da tilápia. A ideia é transformar subprodutos (como pele, escamas e vísceras) em itens de maior valor agregado, como colágeno e óleo de peixe, aumentando a rentabilidade dos produtores e reduzindo a dependência da venda in natura.
A Feira de Negócios da Tilápia de Jatobá (Fentija) é citada como exemplo bem-sucedido dessa integração entre governos federal e estadual para promover desenvolvimento sustentável no Sertão.
Brasil: 4º maior produtor mundial em xeque
O Brasil é atualmente o quarto maior produtor de tilápia do mundo, com consumo interno crescendo acima de 10% ao ano. Esse dinamismo torna o mercado brasileiro atrativo para grandes exportadores asiáticos. Especialistas defendem que a solução passa por uma combinação de maior eficiência produtiva, rigor na vigilância sanitária e políticas que incentivem a produção regional.
Enquanto isso, produtores como os de Jatobá seguem confiantes no diferencial da tilápia fresca e local, mas admitem que o jogo está mudando. “O que mais pode inviabilizar as pisciculturas é a carga burocrática”, resume padre Pier Antônio. O recado é claro: sem medidas de equilíbrio entre abertura comercial e proteção ao produtor nacional, o avanço da tilápia vietnamita pode deixar marcas profundas na aquicultura brasileira — especialmente no Nordeste.