Rica em petróleo, Guiana oferece terras de graça aos produtores brasileiros
País vizinho quer aproveitar a expertise do Brasil para desenvolver sua produção de grãos e reduzir a dependência de importações de alimentos.
A Guiana, país que faz fronteira com o Norte do Brasil, está em busca de produtores rurais brasileiros interessados em cultivar terras em seu território. O convite faz parte de uma estratégia do governo guianense para modernizar sua agricultura e garantir a segurança alimentar da região, aproveitando a vasta experiência do agronegócio brasileiro em áreas de clima tropical.
O presidente da Guiana, Irfaan Ali, tem reforçado o interesse em atrair investimentos do Brasil, especialmente nos estados de Roraima e Amazonas, devido à proximidade geográfica e à similaridade do solo e clima. O objetivo principal é o cultivo de soja e milho, insumos essenciais para a produção de ração animal e o fortalecimento da pecuária local.
O que a Guiana oferece
Para atrair os produtores, o governo da Guiana coloca à disposição:
- Concessão de terras: Áreas extensas com solo fértil e topografia favorável à mecanização.
- Logística facilitada: A pavimentação da rodovia que liga Lethem (fronteira com o Brasil) ao porto de Georgetown, o que deve reduzir drasticamente os custos de escoamento para o Caribe e a Europa.
- Isenções fiscais: Incentivos tributários para a importação de máquinas, equipamentos e insumos agrícolas.
- Acesso a mercados: A Guiana faz parte da Caricom (Comunidade do Caribe), o que permite exportar produtos com tarifas reduzidas para diversos países da região.
Foco em grãos
Atualmente, a Guiana importa a maior parte do milho e da soja que consome. Com a chegada de produtores brasileiros, o país espera não apenas atingir a autossuficiência, mas também se tornar um exportador líquido de grãos. Áreas como a savana de Ebini e a região de Intermediate Savannahs são apontadas como as mais promissoras para esses cultivos.
Além dos grãos, há interesse no desenvolvimento da avicultura e da pecuária de corte, setores que se beneficiariam diretamente da produção local de ração.
Idioma e falta de georreferenciamento ainda são entraves
As dificuldades, porém, começam pela barreira do idioma — a Guiana é o único país sul-americano de língua inglesa — e passam pela ausência de um mapa georreferenciado das terras agricultáveis, pela falta de análises pluviométricas e por uma formatação ainda incipiente do modelo de parceria proposto pelo governo guianês.
A rodovia de 680 km que ligará Lethem, na fronteira com o Brasil, ao porto de Georgetown, avança rapidamente, mas ainda faltam 400 km de asfalto, obra que deve levar de três a quatro anos.
Para atrair produtores, a Guiana oferece concessão de terras por períodos de até 99 anos, renováveis e sem custo. O interessado precisa apresentar um projeto e arcar com investimentos em operação, máquinas, sementes e insumos.
“Eles não querem ‘lisos’ por lá, quem chega sem um centavo no bolso, pega terra, pega dinheiro, pega tudo. Tem que chegar lá e gastar também, dividir as despesas, dividir as broncas. Eles querem gente que vá produzir”, explica Alair Gonçalves, pecuarista e corretor especializado em áreas rurais em Roraima.
De fato, segundo John Edghill, diretor da agência de investimentos da Guiana, há 20 anos alguns estrangeiros pegaram terras para cultivar abacaxi e citrus e não fizeram nada. As áreas acabaram retomadas pelo governo.
Desafios e infraestrutura
Apesar das oportunidades, ainda existem desafios. A infraestrutura logística, embora em expansão, ainda precisa de melhorias significativas para suportar grandes volumes de carga. Além disso, a adaptação jurídica e a regularização fundiária são pontos que os produtores brasileiros devem observar com atenção ao negociar com o governo vizinho.
O movimento ocorre em um momento de boom econômico na Guiana, impulsionado pelas recentes descobertas de gigantescas reservas de petróleo offshore, o que tem dado ao país recursos financeiros para investir em projetos de infraestrutura e parcerias internacionais.
Para o agronegócio brasileiro, a oferta representa uma oportunidade de expansão internacional e uma nova fronteira produtiva, utilizando técnicas de plantio já consolidadas no Cerrado brasileiro para transformar as terras guianenses em um polo produtivo de destaque na América do Sul.