Navio de 3 bilhões de dólares foi construído para fazer o que a física dizia ser impossível

Navio de 3 bilhões de dólares foi construído para fazer o que a física dizia ser impossível

Navio de 3 bilhões de dólares foi construído para fazer o que a física dizia ser impossível e consegue arrancar plataformas de petróleo inteiras do oceano em apenas 10 segundos com precisão cirúrgica

O Pioneering Spirit, construído pela Allseas por US$ 3 bilhões, é o maior navio de içamento do planeta e opera no Mar do Norte removendo plataformas de petróleo inteiras do oceano em segundos, com dezesseis braços hidráulicos e posicionamento dinâmico de nível máximo.

A holandesa Allseas projetou e construiu o Pioneering Spirit para resolver uma equação que a engenharia offshore considerava insolúvel: retirar plataformas de petróleo inteiras do Mar do Norte de uma só vez, sem desmontá-las em pedaços. O navio, que entrou em operação em 2016 após anos de construção e um investimento de US$ 3 bilhões, pesa cerca de 400 mil toneladas sem carga e pode alcançar 900 mil quando opera com capacidade plena. O abertura central da embarcação se estende por 122 metros, espaço onde caberia o Titanic com sobra nas laterais. São 571 tripulantes a bordo, entre engenheiros, soldadores e operadores de equipamentos submarinos, formando uma comunidade autossuficiente no meio do oceano.

O problema que o navio enfrenta vai além do peso das estruturas. A plataforma está ancorada no leito marinho e permanece estática, enquanto o Pioneering Spirit flutua sobre ondas que nunca param de se mover. Se a embarcação oscilar centímetros com uma onda enquanto seus braços já estiverem conectados à estrutura, o impacto seria o de uma massa de centenas de milhares de toneladas colidindo contra a plataforma. Para evitar esse cenário, os engenheiros da Allseas desenvolveram uma tecnologia sem equivalente em nenhum outro navio do mundo.

O motivo pelo qual mais de 600 plataformas precisam sair do Mar do Norte

As águas do Mar do Norte abrigam centenas de instalações petrolíferas, muitas delas com mais de cinco décadas de uso. A legislação internacional exige que, quando um poço se esgota, toda a estrutura seja removida do oceano, e o método convencional para isso consumia anos: frotas de guindastes cortavam a plataforma em seções menores e as retiravam uma por uma. Cada jornada de trabalho naquelas águas geladas custa fortunas, e o risco de acidentes, tempestades e falhas estruturais cresce a cada dia de operação.

A demanda pelo descomissionamento está longe de diminuir. Até 2040, mais de seiscentas estruturas no Mar do Norte precisarão ser desativadas e removidas, e o setor não podia seguir dependendo de operações que devoravam orçamentos e cronogramas por anos. A Allseas propôs algo que ninguém havia tentado: um único navio capaz de se posicionar ao redor da plataforma, envolvê-la com braços mecânicos e separá-la do fundo do mar de uma vez, eliminando meses de corte e içamento fragmentado. Foi a aposta mais cara da história da Allseas e do setor offshore inteiro.

A tecnologia que impede o navio de esmagar a plataforma

O coração do Pioneering Spirit é o mecanismo que a Allseas desenvolveu para absorver o movimento do mar antes que ele chegue à plataforma. Os dezesseis braços que executam o levantamento operam como amortecedores de escala industrial, e não como cabos fixos, graças a um arranjo que combina pressão de gás nitrogênio com circuitos de fluido sob compressão extrema. Quando a embarcação desce com uma onda, os cilindros de nitrogênio absorvem a energia. Quando ela sobe, devolvem. O efeito é uma compensação contínua que isola a plataforma das oscilações do navio.

Enquanto isso, equipamentos ópticos de alta precisão verificam a distância entre as duas estruturas várias vezes por segundo. Doze propulsores sob o casco giram em todos os ângulos sem interrupção, mantendo a embarcação exatamente na posição calculada contra correntes que tentam deslocá-la o tempo todo. O nível de exatidão alcançado é o mais alto da engenharia naval, classificado como DP3: uma embarcação de centenas de milhares de toneladas estabilizada com variação inferior à largura de um computador portátil aberto. Para alimentar o mecanismo de levantamento, um volume de fluido sob pressão equivalente a uma piscina olímpica percorre o circuito permanentemente. Se qualquer vedação ceder durante a operação, a pressão transforma o líquido num jato com força para perfurar chapas metálicas.

A operação Brent Delta: o recorde que o navio estabeleceu em 2017

O teste definitivo do Pioneering Spirit aconteceu em 2017, a quase 200 quilômetros do litoral mais próximo. A plataforma Brent Delta, operada pela Shell por quatro décadas, precisava ser retirada inteira, e sua parte superior pesava 24 mil toneladas, massa comparável à de um edifício de quinze pavimentos apoiado sobre o oceano. Antes da chegada do navio, robôs operados remotamente já haviam seccionado as pernas da estrutura no fundo do mar, deixando apenas conexões provisórias como último vínculo com o leito marinho.

O navio manobrou sua abertura central ao redor das colunas da plataforma com poucos metros de tolerância. Os braços se estenderam, percorreram suas guias até os pontos de fixação e travaram, fundindo navio e plataforma num corpo só. O sistema aguardou o intervalo de menor agitação entre duas ondas e liberou toda a força acumulada nos cilindros de nitrogênio. Em menos de quinze segundos, as 24 mil toneladas se soltaram do fundo e ficaram suspensas no ar. O navio rumou ao porto de Hartlepool carregando a estrutura, estabelecendo o recorde de maior içamento já executado em águas abertas. Pelo procedimento tradicional, a mesma remoção teria levado cerca de dois anos.

O navio que também fabrica gasodutos no fundo do mar

Fora das operações de descomissionamento, o Pioneering Spirit assume uma segunda função completamente diferente: fabricar e lançar dutos submarinos. Dentro do casco, equipamentos automáticos soldam seções de tubulação em sequência ininterrupta, e os trechos prontos descem pela rampa de popa até atingir o leito oceânico a profundidades de até dois quilômetros. Foi dessa forma que a embarcação contribuiu para a construção do TurkStream, gasoduto que cruza o Mar Negro ao longo de mais de novecentos quilômetros.

No dia de maior rendimento registrado, o navio instalou seis quilômetros de tubulação em apenas 24 horas. Uma única embarcação desempenhando duas atividades radicalmente distintas, ambas num patamar que nenhum outro navio consegue reproduzir. O Pioneering Spirit não é o maior em comprimento, nem o mais veloz, nem o mais conhecido. É o mais capaz. E na engenharia offshore, onde cada segundo de operação custa fortunas e cada erro pode ser irreversível, capacidade é a única medida que conta.

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