MPF alerta para risco de “esmagamento costeiro” na Via Costeira

MPF alerta para risco de “esmagamento costeiro” na Via Costeira

Órgão ratificou pedido de suspensão de licenças para construções na orla de Natal e alertou para danos ao ecossistema pelo avanço do mar e das áreas impermeabilizadas – Foto: Alex Régis/Secom Prefeitura do Natal

A Via Costeira de Natal vem sofrendo com um “esmagamento costeiro” e a redução da faixa de praia já é sentida em alguns pontos, pela influência de hotéis e empreendimentos. A avaliação faz parte de uma manifestação apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) à Justiça Federal. O órgão reafirmou a necessidade urgente de medida liminar para proteger as áreas desocupadas do local e ratificou o pedido para a suspensão imediata da íntegra ou de trechos de leis aprovadas nos últimos anos que podem enfraquecer a Via Costeira.

O documento foi protocolado após a realização de audiência prévia, ocorrida em 20 de maio, que reuniu especialistas e gestores públicos para discutir os impactos ambientais e a vulnerabilidade da região.

A manifestação consolida os argumentos de ação civil pública ajuizada pelo MPF em dezembro. Na ocasião, o órgão questionou legislações de âmbito municipal e estadual que, segundo o MPF, contrariam a legislação federal (como o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica), além de licenças concedidas sem o devido respaldo ambiental e legal.

Agora, o MPF destaca que o município de Natal e o governo estadual não apresentaram provas técnicas capazes de contrapor os estudos científicos que apontam a fragilidade ecológica do litoral natalense e a necessidade de controle rígido das intervenções na área. Com isso, o Ministério Público Federal reforçou o pedido de liminar diante do que considerou uma omissão dos órgãos responsáveis e dos riscos de novas autorizações para obras serem liberadas com base nas recentes flexibilizações do Plano Diretor de Natal. 

O objetivo é paralisar temporariamente a concessão de novas licenças nas áreas livres da Via Costeira, evitando a consolidação de ocupações potencialmente irreversíveis, prejuízos financeiros a investidores e custos futuros ao poder público com possíveis obras de contenção e reparação.

Esmagamento costeiro

O professor Venerando Eustáquio, docente de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO), foi designado pelo MPF como perito responsável por analisar a área. Durante a audiência do último dia 20, o engenheiro trouxe dados sobre o cenário climático atual. 

Segundo apontado, o estado vem registrando uma elevação do nível médio do mar de aproximadamente 3,7 mm a 5,6 mm por ano — índices que figuram entre os mais altos do país —, o que agrava os processos erosivos e o risco de inundações.

O especialista utilizou o termo “esmagamento costeiro” para descrever a dinâmica que comprime o litoral entre duas forças simultâneas: a pressão marinha, pelo avanço do mar, associado à elevação do nível oceânico e ao aumento da energia das ondas; e a pressão continental, decorrente do escoamento superficial da água das chuvas, intensificado pela impermeabilização urbana e por falhas no sistema de drenagem, que joga grandes volumes de água na faixa litorânea.

A análise técnica também comprovou que obras de contenção construídas de forma isolada por hotéis e empreendimentos reduzem a faixa de praia e transferem o problema, agravando a erosão em áreas vizinhas. Levantamentos topográficos comparativos de janeiro de 2023 e janeiro de 2024 já demonstram a redução da faixa de areia nos trechos influenciados por essas estruturas pontuais.

A legislação ambiental protege em sua integralidade o ecossistema de restinga no qual a Via Costeira se encontra, independente de toda a área estar coberta ou não por vegetação nativa. O Código Florestal o define expressamente como Área de Preservação Permanente (APP). Soma-se a isso o fato de os terrenos desocupados da via estarem colados ao Parque Estadual das Dunas, o maior parque urbano sobre dunas do Brasil.

Costeira Parque é “tecnicamente indefensável” 

O Costeira Parque, projeto do Governo do Rio Grande do Norte para transformar a área do antigo Vale das Cascatas, na Via Costeira, em um novo espaço de lazer, cultura e convivência, foi considerado por Venerando Eustáquio “tecnicamente indefensável” diante do cenário de vulnerabilidade geoambiental da orla marítima da capital potiguar.

O Costeira Parque ocupará uma área de 34 mil metros quadrados — o equivalente a quase cinco campos de futebol — e contará com estrutura moderna, sustentável e integrada ao ambiente natural.

De acordo com o MPF, por se tratar de uma obra voltada ao interesse social, o órgão buscou acordo sobre o empreendimento, propondo salvaguardas ambientais mínimas.

Foto: Divulgação

O MPF realizou reuniões em dezembro de 2025 e maio de 2026, chegando a flexibilizar suas propostas — aceitando o possível aproveitamento de estudos ambientais já existentes e permitindo a continuidade de atividades sem impacto direto ao meio ambiente no local. Contudo, o governo estadual e os empreendedores recusaram os termos e não apresentaram contrapropostas.

Paralelamente, o próprio corpo técnico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema/RN) do estado emitiu uma manifestação concordando com a necessidade de estudos complementares e monitoramento contínuo da costa, alinhando-se aos argumentos do MPF. Além disso, o órgão ambiental estadual não comprovou nos autos o cumprimento de condicionantes básicas da licença atual por parte do empreendedor.

MPF aguarda resposta da Prefeitura

No âmbito municipal, a Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb) defendeu uma análise fragmentada, “caso a caso”, para o licenciamento de novos empreendimentos, o que o MPF adverte que geraria profunda insegurança jurídica.

“Na prática, a sistemática defendida pela Semurb admite que empreendimentos que se pretendem inserir em uma mesma unidade costeira, submetida aos mesmos processos erosivos, à mesma dinâmica sedimentar e às mesmas vulnerabilidades ambientais, possam receber tratamentos jurídicos distintos”, critica o Ministério Público.

Buscando uma saída preventiva, o MPF enviou ofício à Semurb solicitando o compromisso de não emitir novas licenças urbanísticas até o pronunciamento judicial. No entanto, não houve qualquer resposta por parte da secretaria ou do município até o momento.

Legislações questionadas

A ação apresentada em dezembro foi movida contra o município de Natal, a Câmara Municipal de Natal, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema/RN).

As legislações questionadas, na íntegra ou trechos, incluem o Plano Diretor de Natal (Lei Complementar nº 208/2022); a Lei Municipal nº 7.801/2024; a Lei Estadual nº 12.079/2025; e a Instrução Normativa Municipal nº 002/2025-GS/Semurb. O MPF também aponta as alterações previstas no Projeto de Lei nº 662/2025, que altera a Lei Municipal nº 7.202/2021.

Uma dessas legislações, a Lei nº 7.801/2024, tramitou em regime de urgência e alterou as regras para construções nas chamadas Áreas Especiais de Interesse Turístico e Paisagístico (AEITP), nas quais se insere a Via Costeira de Natal. A nova regra permite intervenções em terrenos atualmente vazios, localizados em áreas de preservação permanente e que deveriam permanecer ‘não edificáveis’ por sua importância ecológica.

Já a Lei nº 12.079/2025, promulgada em fevereiro do ano passado, altera a legislação vigente sobre o “Projeto Parque das Dunas/Via Costeira” e adapta as normas ao atual Plano Diretor de Natal. 

De acordo com o MPF, o objetivo central é impedir que mudanças recentes nas leis e normas municipais e estaduais abram caminho para a ocupação desordenada, colocando em risco a integridade ambiental desse trecho da capital potiguar.

FONTE: SAIBAMAIS.JOR

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