Micotoxinas ampliam preocupação sanitária na produção de tilápia

Micotoxinas ampliam preocupação sanitária na produção de tilápia

Contaminação em rações aquícolas pode comprometer desempenho produtivo, saúde dos peixes e qualidade dos alimentos destinados ao consumo humano.

Artigo escrito por Equipe técnica Biónte

O consumo de produtos aquícolas tem apresentado crescimento constante desde 1961, refletido uma taxa média anual de aproximadamente 3%. Esse cenário é marcado pelo papel predominante da aquicultura, cujo volume de produção vem superando progressivamente a pesca extrativa tradicional. Essa expansão está diretamente relacionada ao aumento do consumo per capita, impulsionado pela crescente urbanização, elevação da renda da população e dos novos hábitos alimentares a nível global.

Dentro do setor da aquícula, a tilápia destaca-se como o segundo grupo de peixes mais produzido a nível global, precedido apenas pelas carpas. A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) é um peixe teleósteo de água doce, originário da África e amplamente associado a ambientes de águas quentes. No entanto, apresenta elevada adaptabilidade, tolerando uma ampla faixa de temperatura da água, baixos níveis de oxigênio dissolvido e até mesmo condições de salinidade moderada. Essa resiliência, combinada com a sua capacidade de aproveitar uma grande diversidade de recursos alimentares, impulsionou a consolidação como uma das principais espécies da produção aquícola mundial.

Apesar dos seus hábitos onívoros, essa espécie apresenta elevadas exigências de proteína bruta, que podem ultrapassar os 45% da composição total da dieta em fases de produção mais exigentes. Tradicionalmente, o setor da aquicultura tem utilizado farinhas de peixe como ingrediente principal para cobrir as necessidades proteicas das diferentes espécies. No entanto, o seu elevado custo impulsionou uma transição para matérias-primas vegetais mais rentáveis, como a soja e o milho.

No entanto, esta alteração na formulação das rações aquícolas tem gerado diversos desafios, entre os quais se destaca um maior risco de exposição dos peixes às micotoxinas.

Micotoxinas na aquicultura

As micotoxinas são metabolitos secundários tóxicos produzidos por diversas espécies fúngicas. Representam um importante desafio para a segurança alimentar global, uma vez que podem afetar a saúde humana tanto pelo consumo direto de alimentos vegetais contaminados quanto de forma indireta, por meio de produtos de origem animal provenientes de animais expostos.

Na aquicultura, esse risco não se limita exclusivamente à ingestão de ração contaminada; as micotoxinas também podem persistir como resíduos na água e nos sedimentos, ampliando as vias de exposição para as espécies aquáticas. A presença dessas toxinas tem efeitos prejudiciais tanto para a saúde dos animais, comprometendo significativamente seu desempenho produtivo, quanto sobre a segurança dos consumidores finais.

Entre os principais efeitos e sinais clínicos decorrentes desta toxicidade, destacam-se o estresse oxidativo, alterações histopatológicas nas brânquias e no fígado, alterações comportamentais, redução do crescimento, em casos mais severos, mortalidade. Estes efeitos variam em função da espécie e da fase produtiva.

É fundamental destacar a elevada termoestabilidade das micotoxinas, que lhes permite resistir aos tratamentos habitualmente utilizados na produção de rações para aquicultura.

Micotoxinas na produção de tilápia

Foto: O Presente Rural/Gemini

A seguir, são apresentados os efeitos observados de algumas das micotoxinas mais estudadas na tilápia do Nilo. Cabe destacar que, apesar de descrever os efeitos individuais de cada uma delas, a situação comum em condições naturais é a co-contaminação por múltiplas micotoxinas, e não a sua ocorrência isolada. A relevância deste cenário reside no fato de que essas toxinas frequentemente atuam de forma sinérgica, de modo que a presença simultânea de várias num mesmo alimento, na maioria dos casos, potencializa sua toxicidade.

Aflatoxinas

As aflatoxinas constituem um grupo de micotoxinas produzidas por espécies do género Aspergillus, principalmente A. flavus e A. parasiticus, que sintetizam as aflatoxinas B1, B2, G1 e G2. Entre elas, a AFB1 destaca-se como uma substância altamente carcinogênica, reconhecida pelos seus efeitos nocivos no fígado e outros órgãos vitais. Em tilápias, diversos sinais clínicos associados à exposição a esse composto já foram descritos, incluindo redução do crescimento, anemia, alterações na coagulação sanguínea, lesões hepáticas e imunossupressão, o que resulta em maior suscetibilidade a infecções e aumento das taxas de mortalidade.

Fumonisinas

Por sua vez, as fumonisinas são micotoxinas originadas por fungos do género Fusarium, principalmente pelas espécies F. verticillioides e F. proliferatum, responsáveis pela síntese das variantes B1, B2 e B3. Em tilápia do Nilo, os efeitos documentados das fumonisinas B1 e B2 incluem a indução do estresse oxidativo em nível celular, lesões hepáticas e redução significativa nos parâmetros de crescimento e eficiência alimentar.

Ocratoxina A

Foto: Jefferson Christofoletti

As ocratoxinas constituem um grupo de metabolitos fúngicos produzidos principalmente por espécies dos géneros Aspergillus e Penicillium. Dentro deste grupo, a ocratoxina A se destaca como a variante mais prevalente e sobre a qual foram descritos os principais efeitos na produção de tilápia. Sua ingestão está associada à redução no crescimento, danos estruturais no fígado e nos rins, bem como a uma alteração da resposta imunológica. Além disso, observou-se um impacto negativo na qualidade do filé, caracterizado por uma redução nos teores de matéria seca e proteína bruta. Tal como acontece com outras micotoxinas, evidenciou-se a transferência e persistência deste composto em diversos tecidos.

Micotoxinas emergentes

Sob a denominação de “micotoxinas emergentes” agrupam-se aquelas que, apesar de apresentarem evidências científicas sobre a sua toxicidade em humanos e animais, ainda não são contempladas por regulamentação legal nem de controles analíticos sistemáticos. No entanto, o interesse por estes compostos tem crescido significativamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pela sua deteção recorrente em matérias-primas e rações utilizadas na indústria aquícola.

Um exemplo relevante é a esterigmatocistina, uma micotoxina produzida por fungos de gênero Aspergillus. Frequentemente associada às aflatoxinas, apresenta efeitos deletérios semelhantes e pode bioacumular-se nos tecidos animais. Os seus principais impactos na tilápia incluem lesões no fígado, no baço e nas brânquias, bem como uma redução no desenvolvimento corporal e na sobrevivência.

Conclusão

A transição para dietas aquícolas baseadas em ingredientes de origem vegetal surge como uma resposta estratégica para garantir a sustentabilidade econômica e ambiental do setor. No entanto, apesar das vantagens em termos de custo e disponibilidade, esta mudança aumenta a vulnerabilidade da ração à contaminação por micotoxinas.

Na criação da tilápia do Nilo, a presença destes metabolitos fúngicos representa um desafio crítico que compromete tanto o bem-estar animal como os parâmetros zootécnicos. Nesse contexto, a gestão rigorosa e eficiente das micotoxinas torna-se indispensável, não apenas para preservar a saúde dos peixes, mas também para garantir a segurança alimentar e a qualidade dos produtos destinados ao consumo humano.

As referências bibliográficas estão com os autores. Contato: maria.sabate@bionte.com.

A versão digital do jornal de Aquicultura é gratuita e pode ser acessada na íntegra clicando aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

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