Gravidade da Terra pode estar fazendo o nível do mar subir mais do que o previsto

Gravidade da Terra pode estar fazendo o nível do mar subir mais do que o previsto

Ondas estourando: elevação do nível do mar. — Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil

Pesquisa revela que projeções atuais podem subestimar em cerca de 15% os efeitos da redistribuição de água nos oceanos, aumentando o risco de inundações em algumas regiões costeiras.

O aumento do nível do mar provocado pela crise climática, associada à queima massiva de combustíveis fósseis, pode ser ainda maior do que indicam as projeções atuais. Um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters concluiu que processos físicos pouco considerados nos modelos climáticos — ligados à gravidade da Terra, à deformação da crosta terrestre e a pequenas alterações na rotação do planeta — podem amplificar a elevação das águas em áreas costeiras.

Até hoje, as estimativas sobre a subida dos oceanos têm se concentrado principalmente em dois fatores: o derretimento de geleiras e calotas polares e a expansão térmica da água, que ocorre à medida que os oceanos aquecem. No entanto, os pesquisadores afirmam que há um terceiro componente importante: a forma como a massa de água se redistribui pelo planeta.

Segundo os autores, quando grandes volumes de água se acumulam em determinadas regiões dos oceanos, a própria gravidade local aumenta ligeiramente, atraindo ainda mais água para o local. Ao mesmo tempo, o peso adicional faz a crosta terrestre ceder, alterando o relevo do fundo do mar. Essas mudanças também podem influenciar a posição do eixo de rotação da Terra, redistribuindo a água entre diferentes regiões.

“Essa redistribuição de massa provoca mudanças adicionais no nível do mar por meio de variações na gravidade local e da deformação do fundo oceânico”, explicam os pesquisadores em um resumo do estudo.

Para medir o impacto desse fenômeno, a equipe utilizou modelos climáticos globais da geração CMIP6, amplamente empregados em projeções do clima futuro. Os cientistas simularam como a massa de água dos oceanos deve se deslocar até 2100 e incorporaram aos cálculos os chamados efeitos GRD — sigla em inglês para gravidade, rotação e deformação.

O resultado mostrou que, nas áreas onde a água tende a se acumular, esses processos físicos elevam ainda mais o nível do mar. Em algumas regiões costeiras, a diferença pode chegar a cerca de cinco centímetros até o fim do século em comparação com projeções que não consideram esses fatores.

“Nossos resultados mostram elevação adicional do nível do mar ao longo das costas e redução do nível do mar em regiões profundas dos oceanos”, afirmam os autores.

Embora cinco centímetros possam parecer pouco, especialistas alertam que pequenas diferenças podem ter impactos relevantes em cidades costeiras vulneráveis. Um nível do mar ligeiramente mais alto aumenta a frequência e a intensidade de alagamentos causados por marés extremas, ressacas e tempestades.

Os efeitos mais pronunciados foram identificados em áreas de plataforma continental ampla e em regiões de altas latitudes, como partes do Ártico. Algumas zonas costeiras do Sudeste Asiático também aparecem entre as mais sensíveis às mudanças.

De acordo com o estudo, a exclusão desses processos físicos das projeções atuais pode levar a uma subestimação de aproximadamente 15% da variabilidade do nível do mar associada aos deslocamentos de massa de água nos oceanos.

“Deixar de considerar esses processos causa uma subestimação de cerca de 15% das variações do nível do mar associadas às mudanças na massa oceânica”, alertam os pesquisadores.

Os autores ressaltam que o fenômeno não representa uma nova causa das mudanças climáticas, mas sim uma peça que estava faltando nos cálculos. A incorporação desses efeitos aos modelos climáticos pode ajudar governos e gestores costeiros a obter estimativas mais precisas sobre riscos de inundação e adaptação ao avanço do mar.

A descoberta reforça que o comportamento dos oceanos é influenciado não apenas pelo aquecimento global, mas também por mecanismos fundamentais da própria física do planeta. E sugere que, em algumas regiões, a ameaça representada pela elevação do nível do mar pode ser um pouco maior do que se imaginava até agora.

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