“Estamos perdendo a capacidade de produzir pescado”: a crise silenciosa que ameaça o setor no RS

“Estamos perdendo a capacidade de produzir pescado”: a crise silenciosa que ameaça o setor no RS

Levantamento analisou 36 estoques pesqueiros explorados comercialmente no Sul e Sudeste do Brasil.Jefferson Botega / Agencia RBS

Pesquisa revela que 86% dos principais estoques pesqueiros do Sul e do Sudeste perderam capacidade de reposição

Mais de oito em cada dez dos principais estoques pesqueiros explorados no Sul e Sudeste do Brasil estão sobrepescados. Isso significa que as espécies são mais capturadas do que têm capacidade de se reproduzir. A conclusão é de um estudo liderado pelo pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Luís Gustavo Cardoso, publicado na revista científica Fisheries Research. (Acesse o artigo na íntegra).

Os chamados estoques pesqueiros representam as populações de uma determinada espécie disponíveis para exploração comercial. Segundo o levantamento, 86% deles possuem hoje menos peixes do que o necessário para garantir a reposição natural e manter uma atividade pesqueira sustentável no longo prazo. O levantamento considerou uma área costeira que vai do sul do Rio Grande do Sul até o norte do Rio de Janeiro.

— Pela primeira vez, conseguimos construir uma visão abrangente da situação dos recursos demersais da Margem Meridional Brasileira. Reunimos informações de captura, esforço de pesca, composição de tamanhos e biologia de 36 estoques sob uma mesma estrutura analítica, o que permitiu um diagnóstico regional padronizado da pesca brasileira — explica Cardoso, professor do Instituto de Oceanografia da Furg e principal autor do estudo.

O resultado preocupa municípios como Rio Grande, onde a pesca movimenta embarcações, indústrias de beneficiamento, exportações e milhares de empregos.

Na prática, a pesquisa indica que, durante décadas, foram retirados do mar mais peixes do que a natureza conseguiu repor. Como consequência, existem hoje menos indivíduos adultos capazes de se reproduzir, reduzindo a capacidade natural de recuperação das espécies e também a produtividade da atividade pesqueira.

O levantamento analisou 36 estoques de peixes e outros recursos demersais — grupo formado por espécies que vivem e se alimentam próximas ao fundo do mar, onde passam grande parte do ciclo de vida. Entre elas estão corvina, castanha, pescadinha-real, merluza e abrótea, todas de grande importância para a pesca comercial no Rio Grande do Sul.

Dos 36 estoques avaliados, 22 possuíam informações suficientes para uma análise completa. Desses, apenas três foram considerados saudáveis. Os demais apresentaram algum grau de sobrepesca, sendo que cinco continuam submetidos a níveis de captura acima do considerado sustentável.

— É importante destacar que um estoque sobrepescado não significa que a espécie esteja próxima da extinção. Os peixes são recursos naturais renováveis e, quando a mortalidade causada pela pesca é reduzida e medidas adequadas de manejo são implementadas, muitos estoques conseguem se recuperar — afirma o pesquisador.

Menos peixes, menor produção

A redução da oferta tende a provocar aumento dos preços, maior instabilidade no abastecimento e, em alguns casos, a substituição de espécies tradicionais por outras ou até por pescado importado. Adriana Franciosi / Agencia RBS

Além dos impactos ambientais, o estudo aponta prejuízos econômicos.

Os pesquisadores estimam que os estoques avaliados teriam capacidade para produzir, de forma sustentável, cerca de 77 mil toneladas de pescado por ano. No entanto, entre 2017 e 2019, a produção média foi de aproximadamente 39 mil toneladas, praticamente metade desse potencial.

Para Cardoso, isso demonstra que a redução das capturas não significa, necessariamente, uma pesca mais sustentável. Em muitos casos, há menos pescado disponível porque as populações foram reduzidas ao longo de décadas de exploração.

LUÍS GUSTAVO CARDOSO

LUÍS GUSTAVO CARDOSO

Professor do Instituto de Oceanografia da Furg

Não estamos apenas perdendo peixes. Estamos perdendo a capacidade de produzir pescado no futuro. Hoje, pescamos menos principalmente porque a biomassa dos estoques diminuiu ao longo do tempo

Segundo o pesquisador, a menor disponibilidade de pescado afeta toda a cadeia produtiva.

— Menores capturas significam menos renda para pescadores, armadores, indústrias de processamento, transporte, comércio e serviços associados. Além disso, a necessidade de permanecer mais tempo no mar ou percorrer distâncias maiores aumenta os custos da atividade. Em cidades fortemente dependentes da pesca, como Rio Grande, isso pode comprometer empregos, arrecadação e o desenvolvimento econômico regional.

Os reflexos também chegam ao consumidor. Conforme Cardoso, a redução da oferta tende a elevar os preços, provocar instabilidade no abastecimento e, em alguns casos, incentivar a substituição de espécies tradicionais por outras ou até por pescado importado.

Espécies do RS estão entre as mais afetadas

Entre as espécies de maior relevância econômica para o Rio Grande do Sul que aparecem em situação mais crítica estão a corvina (Micropogonias furnieri), a castanha (Umbrina canosai) e a maria-mole, também conhecida como pescada-branca (Cynoscion guatucupa).

Segundo o estudo, especialmente a corvina e a castanha apresentam alguns dos maiores déficits de biomassa registrados. Isso significa que essas populações possuem hoje uma quantidade de peixes muito abaixo do nível considerado ideal para garantir sua máxima produtividade de forma sustentável.

A redução é percebida também por quem vive da pesca.

Na lagoa se via muito mais peixe do que hoje. É claro que existem vários fatores, como as mudanças climáticas e a pesca predatória. É bem diferente do que pescávamos antigamente. Quem foi criado na pesca, desde criança, vive isso na pele. A geração dos nossos pais também percebeu essa diferença — relata o pescador Altair Costa.

Décadas de exploração sem controle

Os pesquisadores atribuem esse cenário principalmente à rápida expansão da pesca industrial a partir da década de 1960.

Segundo o estudo, o aumento da capacidade de captura foi impulsionado por incentivos econômicos e avanços tecnológicos, mas não foi acompanhado por um sistema eficiente de monitoramento e gestão pesqueira.

— Durante décadas, o país expandiu sua capacidade pesqueira sem desenvolver mecanismos equivalentes de monitoramento científico e avaliação periódica dos estoques. Em muitos casos, as decisões eram tomadas sem informações suficientes para ajustar a exploração quando surgiam sinais de declínio — explica Cardoso.

O levantamento também mostra que o esgotamento começou nas espécies costeiras e, posteriormente, atingiu peixes capturados em águas mais profundas, à medida que a frota ampliou sua área de atuação.

Recuperação ainda é possível

Apesar do cenário preocupante, os pesquisadores afirmam que boa parte desses estoques ainda pode ser recuperada.

Para isso, será necessário fortalecer o monitoramento da pesca, realizar avaliações científicas periódicas, estabelecer metas biológicas para cada espécie, adotar medidas de manejo adaptativo e ampliar a cooperação entre Brasil, Uruguai e Argentina na gestão dos recursos compartilhados do Atlântico Sul.

Segundo Cardoso, diversos países já demonstraram que a recuperação dos estoques pesqueiros é viável quando existe planejamento de longo prazo.

— Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e países da União Europeia conseguiram recuperar diversos estoques após adotarem sistemas robustos de monitoramento, limites de captura e planos de reconstrução. Esses exemplos mostram que conservação e produção pesqueira não são objetivos opostos. Quando os estoques se recuperam, aumentam também as capturas, a estabilidade econômica e a rentabilidade da atividade — conclui.

FONTE: GAUCHAZH

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