Entre baleias, corais e petróleo, Abrolhos luta por mais proteção

Entre baleias, corais e petróleo, Abrolhos luta por mais proteção
  • A região dos Abrolhos, que concentra a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul, segue sob a ameaça de diversos problemas ambientais — da pesca predatória ao avanço do petróleo.
  • O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, o primeiro do Brasil, cumpre um importante papel na proteção dessa parte do litoral brasileiro. No entanto, ele protege menos de 2% do Banco dos Abrolhos, uma ampla e biodiversa área natural de mais de 46 mil km².
  • Cercada de entraves, a ampliação dos limites territoriais do parque marinho é parte de uma demanda coletiva de mais de uma década, apoiada por organizações conservacionistas e populações tradicionais diretamente afetadas pela crise ambiental.
  • Em janeiro de 2026, o Brasil enviou à Unesco um dossiê de candidatura do parque dos Abrolhos à lista do Patrimônio Mundial Natural, o que poderia favorecer a ampliação de áreas protegidas. Para especialistas, apesar dos desafios, a hora é agora.

CARAVELAS, Bahia — Cientistas, comunidades tradicionais e órgãos ambientais brasileiros sabem bem quais riscos rondam a região dos Abrolhos, área de maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul, localizada entre os litorais da Bahia e do Espírito Santo. Entre as ameaças estão a pesca predatória, a mineração em águas profundas, a carcinicultura (criação de camarões) e a especulação imobiliária. Esses elementos têm algo em comum: podem impactar bancos de coral, ilhas oceânicas, manguezais e outros habitats onde vivem mais de 500 espécies animais.

Além de servir de casa para peixes, invertebrados, tartarugas-marinhas e aves, as águas de Abrolhos são berçário de cetáceos, como as baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). Entre junho e novembro, esses animais migram da Antártica para a região em busca de um ambiente mais cálido para se reproduzir e criar seus filhotes.

Frente à lista de ameaças ao bioma costeiro, uma força-tarefa científica, lançada em março de 2026, busca concluir, até dezembro, uma proposta que poderia ampliar os limites geográficos do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos — a única unidade de conservação integral da região. A iniciativa é da organização ambientalista WWF-Brasil, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Para isso, o WWF promoveu uma expedição ao Arquipélago dos Abrolhos, localizado dentro dos limites do parque. Lá, especialistas, jornalistas e lideranças comunitárias puderam discutir sobre as áreas naturais que ainda carecem de proteção.

Criado em 1983, o parque dos Abrolhos é o primeiro parque nacional marinho do Brasil. No entanto, os seus 882 km² de extensão protegem, oficialmente, apenas cerca de 2% do Banco dos Abrolhos. Essa vasta área natural, com 46 mil km² — quase o equivalente ao território da República Dominicana —, é considerada de igual importância para a vida marinha. O trecho é visto por especialistas como crucial para o desenvolvimento de pesquisas e para o equilíbrio climático, uma vez que abriga a maior concentração de recifes de coral do Atlântico Sul.

Vista panorâmica da Ilha Siriba, uma das cinco que integram o Arquipélago dos Abrolhos (BA). Foto: Eduardo Melo/Instituto Baleia Jubarte/WWF-Brasil.

Fomentada pela disparidade numérica entre o que é protegido e o que ainda pode ser, a ampliação dos limites do parque dos Abrolhos corresponde a uma demanda coletiva que existe há mais de uma década. O plano, porém, já esbarrou em inúmeros impasses, incluindo a forte pressão contrária da indústria do petróleo, que segue ativa no mar brasileiro.

Em 2019, os interesses do setor petrolífero foram alvo de mobilização social, com protestos contra a inserção dos blocos da Bacia de Jacuípe e Bacia de Camamu-Almada (próximas à região dos Abrolhos) em rodadas de licitação de blocos de exploração promovidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). À época, para os movimentos sociais, a articulação foi considerada vitoriosa: nenhuma empresa se interessou pela oferta.

O momento favorecia as reivindicações. Naquele ano, milhares de quilômetros do litoral nordestino do Brasil foram impactados pelo derramamento de óleo, uma crise ambiental que chegou até Abrolhos. O episódio elevou a percepção pública sobre os possíveis impactos desse tipo de atividade e seus custos para a biodiversidade.

Mas, mesmo diante dos riscos vistos ao longo dos anos, integrantes do coletivo Abrolhos para Sempre, um projeto conservacionista formado por organizações locais da sociedade civil, disseram à Mongabay que temem ver antigas iniciativas petrolíferas, antes engavetadas, novamente em pauta. Segundo seus representantes, isso poderia ganhar força com o refluxo das atuais disputas geopolíticas envolvendo o setor global de combustíveis fósseis.

Em busca de mais proteção

Em uma corrida contra o tempo, os movimentos de Abrolhos agora também trabalham pela inclusão das Reservas Extrativistas (Resex) de Cassurubá, de Corumbau e de Canavieiras, todas localizadas no litoral sul baiano, na futura proposta de ampliação dos limites do parque.

Na Resex de Cassurubá, lideranças comunitárias femininas denunciaram à Mongabay que barcos vindos do Espírito Santo têm levado grandes quantidades de pescado de suas águas, o que expõe a falta de garantias territoriais.

Joelma Pinheiro da Silva, presidente da Associação Mãe dos Moradores da Reserva Extrativista de Cassurubá (Amar), com sede em Caravelas (BA), teme pelo futuro da pesca artesanal e de seus modos de vida. “Há barcos pegando toneladas de peixe, ameaçando nossa economia e segurança alimentar”, disse.

Em novembro de 2025, em busca de proteção, ela enviou uma carta ao ICMBio solicitando a ampliação da Resex, que hoje se estende por cerca de 100 mil hectares, entre os municípios baianos de Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa.

Ao lado de Joelma, Marina Portela, coordenadora de projetos da Amar, disse à Mongabay que a invasão de barcos capixabas aumentou após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, em Mariana (MG), considerado o maior desastre ambiental da mineração no Brasil. Mais de uma década depois, a lama com rejeitos de mineração de ferro ainda impacta ecossistemas e comunidades da foz do Rio Doce, no litoral do Espírito Santo.

A Resex Cassurubá, mesmo localizada a cerca de 300 km da foz do Rio Doce, se tornou uma opção para barcos capixabas devido à falta de condições para a pesca em seus ecossistemas natais, ainda afetados pela lama contaminada. No Espírito Santo, pelo menos onze municípios foram diretamente impactados pela ruptura da barragem.

No sul da Bahia, também surgem questionamentos paralelos. O setor pesqueiro reconhece a importância do parque dos Abrolhos e a necessidade de ampliá-lo, mas alerta que, caso não haja ampliação proporcional das Resex (onde a pesca artesanal e de subsistência é garantida sob algumas regras), pescadores artesanais poderiam enfrentar problemas no futuro.

Kleber Oliveira, coordenador regional do ICMBio, aponta um problema estrutural. Ele diz que barcos de grande porte já exercem pressão sobre embarcações menores na região (entre Bahia e Espírito Santo) e competem com comunidades pesqueiras de forma desigual. Segundo ele, o problema vem reduzindo significativamente os estoques pesqueiros.

Vista panorâmica de uma das ilhas do Arquipélago dos Abrolhos (BA). Foto: Eduardo Melo/Instituto Baleia Jubarte/WWF-Brasil.

Em busca de soluções, o ICMBio pretende utilizar parte dos recursos do acordo de compensação pelo desastre de Mariana para aprimorar processos de gestão em áreas protegidas da região. A tratativa, assinada em 2024 entre o governo federal, as gestões estaduais de Minas Gerais e do Espírito Santo, além das mineradoras responsáveis — Vale, BHP Billiton e Samarco —, prevê o pagamento de R$ 132 bilhões ao longo de duas décadas.

Além de ampliar ações de fiscalização e melhorias nas comunidades, a verba deve ser destinada a estudos sobre a situação dos estoques pesqueiros da região sul da Bahia, o que pode ajudar a definir estratégias de proteção das espécies.

“A gente ainda tem pouca possibilidade de monitorar e averiguar a situação dos estoques pesqueiros, mas pensamos em contratar pessoas da região para fazer esse monitoramento”, diz Oliveira. “Constatando o problema, podem ser feitos acordos de gestão pesqueira com as comunidades, já que toda ação de Resex é feita com elas.”

O coordenador mencionou a possibilidade de criar berçários de espécies, pactuando áreas de exclusão pesqueira temporárias ou permanentes, de acordo com cada caso investigado.

Em abril, a área de Unidades de Conservação do ICMBio disse à Mongabay por mensagem de texto que recebeu a carta da Amar. De acordo com a pasta, o “conteúdo foi incorporado ao conjunto de contribuições que subsidiam o processo de ampliação das unidades de conservação em análise”. O órgão disse reconhecer, ainda, “a proposta de ampliação da Resex Cassurubá como uma demanda das comunidades do sul da Bahia”.

Ainda segundo o ICMBio, a ampliação do parque dos Abrolhos e das três Resex está em fase de estudos técnicos e “ainda sem previsão de conclusão”. Posteriormente, explicaram, “o processo avança para a realização das consultas públicas”. Essa etapa técnico-participativa está prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Snuc).

Em seguida, o caso segue para análise do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e de outras pastas envolvidas, até ser submetido à decisão final da Presidência da República. Ainda não é possível determinar o prazo para que todas essas etapas sejam concluídas — nem se isso efetivamente levaria à expansão da área oficial do parque marinho.

Um horizonte de expectativas

O biólogo Guilherme Dutra, coordenador da missão científica do WWF-Brasil e secretário-executivo do coletivo Abrolhos para Sempre, disse, otimista, que o levantamento de dados ambientais e socioeconômicos para embasar a proposta de ampliação já está em curso.

Os primeiros resultados sistematizados, divulgados em abril, citam a importância da Região dos Abrolhos — incluindo o parque nacional e as três Resex — para a pesca artesanal e o turismo. Juntas, as atividades injetaram R$ 1,9 bilhão na economia regional em 2024.

“Estima-se que as unidades de conservação contribuam com cerca de 30% dos empregos e 28% da economia associada à pesca e ao turismo na região”, disse o WWF-Brasil. “Entre os destaques está o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, que recebeu 16.912 visitantes em 2024 e injetou quase R$ 7 milhões na economia local.”

Dutra também é o principal autor de um estudo de 2025 que alerta para os riscos das lacunas de proteção legal na Região dos Abrolhos, onde o maior banco de rodolitos (estruturas ou nódulos calcários depositados por algas vermelhas, encontrados no fundo do mar) do mundo se encontra fora das áreas protegidas atualmente.

Os especialistas explicam que essas estruturas protegem os corais da ação erosiva das ondas, servindo de abrigo à biodiversidade marinha e contribuindo para o equilíbrio climático por serem especializadas na captura de carbono.

Segundo José Truda Palazzo Júnior, coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte, o Brasil vive um momento político-institucional “favorável à conservação marinha”, o que poderia impulsionar medidas de proteção. Ele mencionou a recente criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, no Rio Grande do Sul — o maior do país, com 1 milhão de hectares.

Palazzo também citou uma decisão de março de 2026 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que estabeleceu restrições ao comércio de tubarão-azul (Prionace glauca), espécie ameaçada cuja carne é amplamente consumida no Brasil e no mundo, muitas vezes sem regulamentação. O assunto foi um dos temas abordados em uma reportagem da Mongabay, cujos impactos geraram repercussão nacional.

Marina Corrêa, líder da agenda de Oceano do WWF-Brasil, também enxerga um momento “positivo” para a conservação marinha no país. Ela destacou a criação, em janeiro de 2023, do Departamento de Oceano e Gestão Costeira no âmbito do MMA.

Na visão da especialista, a mobilização do coletivo Abrolhos para Sempre também pode ganhar visibilidade internacional após a região ser apontada, em 2025, como novo Hope Spot (“local de esperança”, em inglês) pela organização Mission Blue. A entidade é liderada pela oceanógrafa Sylvia Earle, que descreveu Abrolhos como “um dos lugares mais extraordinários do oceano”.

Corrêa e outras fontes ouvidas pela Mongabay dizem confiar que, em breve, Abrolhos ganhará mais destaque no mundo, por uma boa razão. Em janeiro de 2026, o Brasil enviou à Unesco um dossiê de candidatura do parque dos Abrolhos à lista do Patrimônio Mundial Natural, que reconhece lugares de relevância ambiental e cultural para a humanidade.

A proposta, caso seja aceita, pode ser mais uma que pesará a favor de uma futura ampliação dos limites de proteção a um ecossistema visto como elementar para a vida marinha.

Um peixe-frade (Pomacanthus paru) no complexo de corais de Abrolhos (BA). Foto: Eduardo Melo/Instituto Baleia Jubarte/WWF-Brasil.

Edição: Lucas Berti

Imagem do banner: Corais no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. Foto: RobertoCostaPinto, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Citação:

Dutra, G. F., Santos, L. P., Coutinho, B. H., Saliba, A., Garcia, M. I. M., Mies, M., Camargo, E., Teixeira, J. B., Bianchini, A., Guebert, F., Lacerda, C., Negrão, F., & Francini-Filho, R. B. (2025). Marine biodiversity hotspots in the Abrolhos Region and Vitória-Trindade Seamount Chain, Brazil, with implications for conservation. Ocean and Coastal Research, 73. doi:10.1590/2675-2824073.24055

FONTE: BRASIL.MONGABAY

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