Cinco quarteirões somem no mar enquanto a areia reaparece na praia vizinha: o fenômeno mapeado há 60 anos no litoral fluminense

Cinco quarteirões somem no mar enquanto a areia reaparece na praia vizinha: o fenômeno mapeado há 60 anos no litoral fluminense

São João da Barra reúne praias extensas e paisagens abertas no litoral fluminense // IMAGEM ILUSTRATIVA

A mesma faixa costeira apresenta perda de terreno de um lado e ganho de areia de outro

Uma praia parece um lugar fixo, mas é apenas o ponto de equilíbrio entre a areia que chega e a areia que vai embora. No norte do Rio de Janeiro, esse equilíbrio se rompeu: em Atafona, distrito de São João da Barra, o mar avançou sobre ruas inteiras, enquanto a poucos quilômetros dali outra praia engordou com o mesmo material. É o raro caso brasileiro em que dá para ver, no mapa, para onde foi a terra que faltou.

Quanto o mar avançou sobre o distrito entre 1954 e 2018?

O bastante para apagar quarteirões inteiros da planta da cidade. Segundo a Universidade Federal Fluminense (UFF), o distrito perdeu cinco quarteirões para a erosão costeira crônica entre 1976 e 2018, e outros sete ficaram parcialmente danificados no período.

A área atingida com severidade chega a 215 mil metros quadrados, algo próximo de perder um quarteirão a cada dois anos e meio. O estudo do Laboratório de Geografia Física da universidade acompanhou o comportamento da linha de costa desde 1954 e classificou o trecho como um ponto proeminente de erosão, o que na literatura técnica se chama hot spot, faixas de pelo menos 5 km em processo acelerado.

Por que a areia que some de um lado aparece no outro?

Porque a areia não desaparece, apenas muda de endereço. As ondas chegam à costa em ângulo e empurram o sedimento em uma direção predominante, movimento chamado de deriva litorânea, uma espécie de esteira que corre paralela à praia. O que é retirado de um trecho acaba depositado adiante.

Foi exatamente o que os pesquisadores mediram: enquanto Atafona recua, os perfis analisados em Grussaí, praia vizinha, mostraram acreção, ou seja, ganho de areia. O trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Geomorfologia, que detalha a dinâmica no flanco sul do delta do Rio Paraíba do Sul. Dois lugares a poucos quilômetros um do outro vivem processos opostos e complementares.

Que papel o rio tem nessa conta?

Papel de fornecedor. Um delta se mantém porque o rio despeja no oceano um volume constante de sedimento, e as ondas devolvem parte desse material para a praia. O Paraíba do Sul percorre mais de mil quilômetros desde São Paulo, atravessa Minas Gerais e chega ao Atlântico justamente ali, na divisa entre a água doce e a salgada.

Quando esse fornecimento cai, a praia perde a capacidade de se recompor entre uma ressaca e outra. Represamentos ao longo da bacia, retirada da mata ciliar e assoreamento reduzem a carga de sedimento que chega à foz, e o resultado é uma costa que recua mais do que consegue repor. Vale a comparação: obras que redesenham o caminho da água mudam paisagens inteiras, como acontece com canais artificiais construídos para transportar água por centenas de quilômetros, só que aqui o efeito aparece na ponta final do sistema.

O que ainda se vê no balneário hoje

Uma orla que virou sala de aula ao ar livre. O Balneário de Atafona segue sendo o principal destino turístico do município e abriga o Espaço da Ciência, ligado ao Geoparque Costões e Lagunas, com exposição de estromatólitos coletados na Lagoa Salgada, estruturas formadas por colônias de bactérias fossilizadas, entre os registros mais antigos de vida preservados no litoral fluminense.

No entorno, a paisagem soma outros contrastes. A orla do município tem cerca de 32 km e areias monazíticas, escurecidas por minerais pesados, e no centro histórico resiste o único prédio colonial remanescente, a antiga Cadeia Pública e Câmara dos Vereadores, erguida no fim do século XVIII e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), conforme o Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

Uma praia que ensina como o litoral se refaz

O que acontece nesse pedaço do norte fluminense costuma ser lido como perda, e é. Mas também é uma das demonstrações mais claras de que a costa não é uma linha desenhada no mapa: é um sistema em movimento, alimentado por rios que vêm de longe e redistribuído por ondas que trabalham todos os dias, sem pausa.

Medida em uma temporada de verão, a diferença parece pequena. Medida em seis décadas de imagens de satélite, ela se transforma em quarteirões que trocaram de lugar com o oceano, e em um lembrete de que o que se constrói na areia depende do que um rio inteiro consegue entregar na foz.

Fonte O Antagonista ( Texto e imagens referente a São João da Barra e não a Barra de São João)

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