Cientista marinho alerta que quase metade das praias do mundo pode desaparecer
Enquanto o avanço do mar e a urbanização esmagam dunas, aceleram a erosão costeira e deixam cidades inteiras mais expostas a tempestades, perda de turismo e destruição de ecossistemas
Estudo alerta que quase metade das praias arenosas pode desaparecer até 2100, enquanto 20% já sofrem erosão intensa, severa ou extrema no mundo, impulsionadas pela elevação do nível do mar, urbanização costeira e destruição de dunas naturais.
Segundo a Agência FAPESP, o cientista marinho uruguaio Omar Defeo, professor da Universidade da República do Uruguai, apresentou em novembro de 2025, no simpósio FAPESP Day Uruguay, em Montevidéu, uma conclusão que reúne décadas de monitoramento costeiro em uma frase: “Quase metade das praias vai desaparecer até o fim do século.” A projeção não é nova. Estudos publicados na Nature Climate Change em 2020 já apontavam nessa direção, com análise de 35 anos de dados de satélite, 82 anos de projeções climáticas e mais de 100 milhões de simulações de eventos de tempestade.
O que mudou agora é a convergência de evidências. Um estudo publicado por Defeo e colaboradores brasileiros na Frontiers in Marine Science avaliou 315 praias no mundo e encontrou que um quinto delas já exibe erosão intensa, extrema ou severa, não como previsão futura, mas como condição atual.
Erosão costeira ameaça praias no Brasil, Uruguai, Argentina e outras regiões do mundo
As praias não estão esperando o nível do mar subir para desaparecer. Elas já estão recuando sob a combinação de desenvolvimento costeiro, remoção de dunas, urbanização que interrompe o fluxo natural de sedimentos e ondas mais energéticas em um oceano mais quente.
“Quase metade das praias vai desaparecer até o fim do século”, disse Defeo. “Nós no Uruguai, no Brasil e na Argentina compartilhamos esses recursos. Por isso, devemos trabalhar em parceria com cientistas brasileiros para gerir e conservar os ecossistemas costeiros.”
A afirmação coloca o litoral sul-americano dentro de uma crise global. Praias arenosas, dunas costeiras e zonas de surfe formam sistemas naturais conectados, e a perda de uma dessas partes compromete toda a proteção costeira.
O que é uma praia e por que esse sistema dinâmico está perdendo equilíbrio
Para entender por que as praias estão desaparecendo, é necessário entender o que uma praia realmente é do ponto de vista geomorfológico. Ela não é uma faixa de areia fixa, presa ao mesmo lugar por uma força permanente.
Uma praia é um sistema dinâmico em equilíbrio constante entre forças que depositam areia e forças que removem areia. Os sedimentos chegam pelos rios, pela erosão de falésias, pelas dunas costeiras e pela circulação ao longo da linha de costa.
A areia também é removida pelas ondas durante tempestades e pela deriva litorânea, que transporta sedimentos ao longo do litoral. Quando esse balanço natural é interrompido, a erosão passa a superar a reposição e a praia começa a desaparecer.

Dunas costeiras funcionam como reservatórios naturais de areia contra ressacas e tempestades
Em condições naturais, a entrada e a saída de sedimentos se equilibram ao longo de décadas. Praias podem recuar temporariamente durante o inverno ou depois de tempestades e se recuperar na estação seguinte.
A duna, formação de areia acima do nível de preamar coberta por vegetação, funciona como reservatório de sedimentos. Quando uma ressaca remove areia da praia, a duna cede parte desse material, e a calmaria posterior ajuda a recompor o sistema.
O pesquisador Guilherme Corte, da Universidade de São Paulo, explicou que o vento leva areia da área seca para a zona de surfe, enquanto as ondas devolvem sedimento à praia. A duna age como amortecedor natural, mas esse mecanismo quebra quando construções removem dunas e vegetação costeira.
Elevação do nível do mar e esmagamento costeiro aceleram o desaparecimento das praias
O estudo de Defeo e colaboradores identificou dois mecanismos principais atuando juntos na erosão de praias. O primeiro é a elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.
Quando o nível do mar sobe, a posição de equilíbrio da praia se desloca para dentro. Pela regra de Bruun, cada centímetro de elevação do nível do mar pode produzir recuo horizontal da costa de 50 a 100 vezes esse valor, dependendo da inclinação da praia.

O segundo mecanismo é o esmagamento costeiro, quando o mar avança e encontra calçadões, hotéis, rodovias e casas no lugar de dunas e vegetação. Sem espaço para migrar para o interior, a praia fica espremida entre o oceano e a cidade até desaparecer.
Um quinto das praias avaliadas no mundo já sofre erosão intensa, severa ou extrema
O dado mais impactante apresentado por Defeo foi que 20% das 315 praias avaliadas no mundo já apresentam erosão intensa, extrema ou severa. Isso significa que a crise não está restrita ao futuro: ela já está em andamento.
Erosão intensa representa recuo da linha de costa entre 1 e 3 metros por ano. Erosão severa ou extrema indica perdas acima de 3 metros por ano, ritmo capaz de eliminar praias em anos ou poucas décadas.
Para comparação, a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, tem largura média de cerca de 70 metros. Um recuo de 3 metros por ano poderia eliminar uma praia desse porte em menos de 25 anos, caso não houvesse intervenção de engenharia.
Urbanização costeira, espigões, dragagem e limpeza mecânica reduzem a reposição de areia
O estudo aponta que atividades humanas têm papel significativo na erosão, especialmente em praias reflexivas e intermediárias. Construções de píeres, quebra-mares e espigões alteram a circulação dos sedimentos ao longo da costa.
Essas obras podem privar praias a sotavento do suprimento natural de areia. A dragagem de canais portuários e de acesso também retém sedimentos que deveriam continuar circulando pelo litoral.
Outro problema é a limpeza mecânica de praias turísticas, feita para remover algas e resíduos orgânicos. Essa prática melhora a aparência imediata, mas retira matéria orgânica que alimenta organismos da zona intermareal e prejudica a biodiversidade.
Praias e dunas protegem cidades costeiras contra ressacas, ciclones e avanço do mar
A perda de praias não significa apenas perda de destinos turísticos. Ela remove uma infraestrutura natural de proteção costeira que beneficia milhões de pessoas, inclusive aquelas que quase nunca pisam na areia.
Praias com dunas desenvolvidas funcionam como barreiras contra tempestades, ciclones, ressacas e marés de tempestade. Elas absorvem parte da energia das ondas antes que a água chegue às áreas construídas.
Quando as dunas são removidas por urbanização ou erosão, a energia das ondas atinge diretamente ruas, redes de infraestrutura, imóveis e comunidades costeiras. O que antes era proteção natural gratuita passa a exigir obras caras de engenharia costeira.
Brasil tem 7.400 quilômetros de costa expostos à erosão, avanço do mar e salinização
Para o Brasil, o problema é especialmente relevante. O país tem cerca de 7.400 quilômetros de linha de costa, com cidades como Recife, Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e Santos diretamente expostas ao avanço do mar.
A ilha de Marajó, no Pará, já aparece como uma das regiões mais vulneráveis à erosão costeira e à salinização de aquíferos por avanço marinho no Brasil. No litoral norte de São Paulo, pesquisas de Defeo e colaboradores brasileiros indicam erosão acelerada associada ao turismo intenso e à elevação do nível do mar.
A crise costeira brasileira combina risco ambiental, urbano, econômico e social. Não se trata apenas de perder areia, mas de comprometer moradia, turismo, infraestrutura, biodiversidade e proteção contra eventos extremos.
Biodiversidade das praias arenosas desaparece antes mesmo de ser percebida pela maioria dos visitantes
Além da proteção costeira e do turismo, praias de areia sustentam uma biodiversidade invisível para a maioria dos visitantes. Essa vida é uma das primeiras a ser destruída quando a praia desaparece ou é alterada por urbanização.
A zona intermareal, faixa entre a maré alta e a maré baixa, abriga cracas, caranguejos, moluscos, poliquetas, crustáceos e equinodermos que vivem enterrados na areia úmida. Esses organismos formam a base da cadeia alimentar costeira.
Aves migratórias dependem dessas comunidades para se alimentar durante viagens de milhares de quilômetros. Peixes costeiros também usam áreas rasas das praias como berçários para larvas e juvenis.
Praias substituídas por concreto têm menos chance de recuperação natural
O que já não pode ser facilmente recuperado são praias totalmente substituídas por calçadões, muros, rodovias e fundações. Nesses locais, o espaço para a praia migrar simplesmente deixou de existir.
Defeo usou a palavra “esmagamento” para descrever esse processo. A praia fica comprimida entre o mar que avança e a cidade que não recua.
O desaparecimento dessas praias não ocorre apenas por força natural, mas por escolhas de desenvolvimento feitas sem compreender o que estava sendo sacrificado. A pergunta agora é quantas cidades costeiras ainda vão tratar dunas e faixas de areia como espaços vazios, quando elas são parte da defesa natural contra o avanço do mar.

