China acelera uso de IA para prever tufões e eventos extremos
Uma imagem de satélite mostra o tufão Dolphin se aproximando de Okinawa, no Japão, em 6 de agosto de 2026Crédito: REUTERS
Modelos como Fengwu, Pangu-Weather e FuXi reduzem o tempo de processamento e começam a atuar ao lado dos sistemas meteorológicos tradicionais
Uma nova geração de sistemas de inteligência artificial desenvolvidos na China está ganhando espaço na previsão de tufões e de outros fenômenos meteorológicos severos, com capacidade de produzir projeções em menos tempo e com menor demanda computacional que os métodos convencionais.
Segundo reportagem da CNN Brasil, com informações da Reuters, entre as principais iniciativas chinesas estão o Fengwu, desenvolvido pelo Laboratório de Inteligência Artificial de Xangai; o Pangu-Weather, da Huawei; e o FuXi, criado por pesquisadores da Universidade de Fudan. Os modelos vêm sendo utilizados em conjunto com ferramentas tradicionais de meteorologia.
O avanço ocorre em um momento de pressão crescente sobre os sistemas de previsão do país. A China enfrenta ondas de calor, tufões, enchentes e períodos prolongados de seca, enquanto fenômenos como o El Niño podem provocar alterações adicionais no regime de monções e aumentar a intensidade de eventos extremos.
Um dos principais diferenciais da inteligência artificial está na velocidade de processamento. Os modelos meteorológicos convencionais dependem de cálculos físicos complexos realizados por supercomputadores para simular variáveis como temperatura, pressão atmosférica, umidade e velocidade dos ventos.
Os sistemas baseados em IA seguem outra lógica: são treinados com grandes volumes de observações e registros meteorológicos para identificar padrões e projetar a evolução das condições atmosféricas. Com isso, podem produzir resultados em uma fração do tempo necessário aos modelos numéricos tradicionais.
A vantagem pode ser decisiva durante a temporada de tufões no Leste Asiático. Antecipar com maior precisão a trajetória, a intensidade e o horário de chegada de uma tempestade permite às autoridades preparar evacuações, mobilizar equipes de emergência e adotar medidas para reduzir danos.
O Fengwu está entre os projetos chineses que mais ganharam projeção. Seus desenvolvedores afirmam que o sistema obteve desempenho superior ao GraphCast, do Google, em aproximadamente 80% das variáveis meteorológicas avaliadas. Também foram relatados avanços em previsões de médio prazo, incluindo projeções para períodos superiores a dez dias.
“Com o aumento dos fenômenos climáticos extremos, as pessoas precisam de informações para tomar decisões, sejam governos locais, o governo nacional ou mesmo o cidadão comum, agricultores e pescadores”, afirmou Sun Zhi, diretor de tecnologia da Techwind, empresa responsável pelas aplicações industriais do Fengwu.
A capacidade do sistema para acompanhar tufões também foi colocada à prova com o Dolphin. Segundo Sun, o Fengwu teria antecipado o horário e o ponto de chegada do fenômeno à China com margem de aproximadamente 30 minutos e 30 quilômetros.
A tecnologia, contudo, ainda não substitui os métodos tradicionais. O próprio executivo reconheceu que os sistemas de inteligência artificial apresentam limitações e podem ter desempenho inferior ao dos modelos meteorológicos convencionais em determinadas situações.
A perspectiva entre pesquisadores é, portanto, de complementaridade. Os modelos numéricos continuam essenciais para reproduzir os processos físicos da atmosfera e também funcionam como referência para avaliar e aperfeiçoar ferramentas construídas com inteligência artificial.
A combinação das duas abordagens pode permitir previsões mais rápidas e detalhadas sem abandonar a fundamentação física dos sistemas tradicionais. A redução do custo computacional proporcionada pela IA é outro fator que estimula investimentos na área.
A disputa tecnológica não está restrita à China. Empresas, universidades e centros meteorológicos dos Estados Unidos e da Europa também desenvolvem sistemas semelhantes. Entre os projetos de maior destaque estão GraphCast e GenCast, do Google; FourCastNet, desenvolvido com apoio da Nvidia; e AIFS, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).
A expansão chinesa nessa área acrescenta uma dimensão estratégica ao desenvolvimento da inteligência artificial. Diante da maior exposição a fenômenos climáticos severos, aumentar a antecedência e a precisão dos alertas pode melhorar a resposta das autoridades e diminuir riscos para comunidades atingidas.
Ao mesmo tempo, o país permanece no centro das discussões sobre as causas do aquecimento global. A China é o maior emissor mundial de gases de efeito estufa, em um cenário marcado pela forte participação do carvão em sua matriz energética e pelo peso de sua atividade industrial.
O desenvolvimento de ferramentas de IA para meteorologia não elimina esse desafio, mas amplia os recursos disponíveis para adaptação aos efeitos de eventos extremos. A tendência é que inteligência artificial e modelos físicos avancem de maneira integrada, em vez de uma tecnologia simplesmente substituir a outra.

