Brasil remove 18 milhões de toneladas de areia do fundo do mar

Brasil remove 18 milhões de toneladas de areia do fundo do mar

Brasil remove 18 milhões de toneladas de areia do fundo do mar em uma megaoperação de R$ 333 milhões em Itapoá que abre caminho para navios maiores e transforma a própria dragagem em reforço costeiro no maior alargamento de praia já feito no país

Obra em Itapoá aprofunda canal da Babitonga e reaproveita areia da dragagem para ampliar a praia e conter a erosão em SC. (Imagem: Ilustrativa)

Uma intervenção no litoral catarinense reuniu dragagem, engenharia costeira e recuperação de praia em uma mesma operação, transformando a dinâmica da orla e do canal portuário em um caso de interesse para infraestrutura, meio ambiente e navegação.

Uma obra iniciada em 11 de outubro de 2025 em Itapoá, no litoral norte de Santa Catarina, reúne duas frentes na mesma intervenção: o aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga e o reaproveitamento de parte da areia retirada do fundo para recompor a faixa de praia.

Segundo informações divulgadas por órgãos e empresas envolvidos no projeto, trata-se do maior alargamento de praia já executado no Brasil e da primeira iniciativa no país a destinar material de dragagem portuária para esse tipo de recuperação costeira.

A intervenção foi estruturada para ampliar as condições de navegação na região portuária e, ao mesmo tempo, reforçar um trecho do litoral sujeito à erosão.

O investimento mais recente divulgado oficialmente é de R$ 333 milhões, com conclusão geral prevista para o segundo semestre de 2026.

Dragagem na Baía da Babitonga e ampliação do canal

No canal externo da Babitonga, a obra prevê aprofundamento de 14 para 16 metros.

De acordo com o Porto de São Francisco do Sul, a mudança deve ampliar a janela operacional para entrada e saída de embarcações, com menor dependência das variações de maré e possibilidade de atendimento a navios de maior porte.

Segundo dados oficiais, a profundidade adicional permitirá a operação de embarcações de até 366 metros de comprimento, ante o limite anterior de 336 metros.

A projeção informada também indica aumento da capacidade de transporte, de 10 mil para 16 mil TEUs, medida usada no setor para contêineres.

Engordamento da praia de Itapoá (Imagem: Reprodução)

Como a areia da dragagem é usada no alargamento da praia

Na prática, a dragagem retira sedimentos do canal para garantir mais profundidade e, em parte, redireciona essa areia para a orla de Itapoá.

O método é conhecido como alimentação artificial de praia, ou engordamento, e é adotado em áreas que enfrentam perda de faixa de areia por ação das ondas, das correntes e das ressacas.

Nota técnica do Tribunal de Contas de Santa Catarina descreve esse tipo de solução como a execução de aterros hidráulicos com sedimentos arenosos para mitigar erosão, recuperar áreas de lazer e proteger estruturas na zona costeira.

Em vez de tratar todo o material dragado como descarte, o projeto utiliza parte dele como insumo para a recomposição da praia.

As comunicações oficiais mais recentes do Porto de São Francisco do Sul apontam que a obra deve remover cerca de 12,5 milhões de metros cúbicos de areia do canal ao longo de toda a intervenção.

Desse total, a previsão mais atualizada é de que 5,8 milhões de metros cúbicos sejam destinados à praia, enquanto o restante seguirá para uma área oceânica licenciada pelo Ibama.

Em divulgações anteriores, no entanto, apareceram números diferentes para o volume total dragado e para a parcela destinada à orla.

Por isso, o dado foi tratado aqui com base nas informações oficiais mais recentes, sem unificar valores que ainda aparecem de forma distinta nas comunicações públicas do projeto.

Imagem: Reprodução

O que mudou na faixa de areia de Itapoá

A recomposição da praia também mudou de escala ao longo das fases anunciadas.

Informações divulgadas no início da obra indicavam alargamento de 8 quilômetros de faixa costeira, com trechos que poderiam alcançar até 200 metros de largura.

Já a primeira etapa executada entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 foi apresentada pela empresa Jan De Nul como a entrega de uma base inicial ao longo de 8 quilômetros, com largura mínima de 40 metros.

Ainda segundo a empresa, cerca de 4 milhões de metros cúbicos de areia foram lançados na costa nessa primeira fase.

O trecho recebeu reforço ao longo da orla para formar uma faixa mais ampla de proteção natural diante da ação do mar.

Galileo Galilei e a operação de engenharia costeira

A operação foi realizada pela draga Galileo Galilei.

De acordo com o Porto de São Francisco do Sul, a embarcação tem 166 metros de comprimento e capacidade para transportar 18 mil metros cúbicos de material por viagem, volume comparado oficialmente a 1.800 caminhões trucados.

Draga Galileo Galilei (Imagem: Reprodução)

Esse tipo de embarcação aspira a areia do fundo marinho, transporta o sedimento e depois o bombeia até a praia, onde o material é espalhado com apoio de máquinas em terra.

A sequência exige coordenação entre operação marítima e trabalho em superfície para distribuir a areia conforme o perfil definido no projeto.

Restinga, dunas e monitoramento da erosão

Depois da chegada do sedimento, a estabilidade da nova faixa de areia depende de outras etapas.

Em 2026, o projeto entrou em fase de replantio de vegetação de restinga, medida apontada por técnicos e órgãos ambientais como importante para ajudar na fixação das dunas e reduzir a mobilidade da areia.

Segundo informações divulgadas pelo Porto de São Francisco do Sul e reproduzidas pela imprensa regional, o plano prevê o plantio de até 280 mil mudas de seis espécies nativas até o fim de 2026.

A recuperação vegetal integra a tentativa de dar maior permanência ao novo perfil da praia.

Além disso, Itapoá passou a usar monitoramento a laser para acompanhar o avanço do mar e a evolução da erosão em trechos da orla.

Parceria entre porto público e terminal privado

A obra também chama atenção pelo formato institucional adotado.

A dragagem foi estruturada como uma parceria entre a autoridade portuária de São Francisco do Sul e o terminal privado de Itapoá, modelo apresentado oficialmente como inédito no país para esse tipo de intervenção.

Pelos números divulgados, R$ 33 milhões cabem ao porto público e R$ 300 milhões ao terminal privado.

A previsão oficial é de ressarcimento ao longo dos anos seguintes, com base no aumento de movimentação e nas receitas associadas à expansão da capacidade portuária.

No conjunto, a intervenção conecta temas que normalmente aparecem separados no debate público: logística portuária, erosão costeira, engenharia marítima e recuperação ambiental.

Em Itapoá, a areia retirada do canal para facilitar a navegação passou a ter uso também na recomposição da praia, dentro de um projeto que reúne infraestrutura e gestão costeira na mesma operação.

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