Alerta nos oceanos: Estudo encontra níveis perigosos de mercúrio em peixes no litoral do RJ

Alerta nos oceanos: Estudo encontra níveis perigosos de mercúrio em peixes no litoral do RJ

O bonito-pintado (Euthynnus alletteratus), um atum de médio porte muito consumido no Rio de Janeiro, acendeu um sinal de alerta para cientistas e autoridades de saúde. Uma pesquisa recente revelou que metade das amostras do peixe comercializadas em Cabo Frio ultrapassou os limites de segurança para mercúrio estabelecidos pela legislação brasileira.

O estudo, publicado na revista científica Neotropical Ichthyology, analisou 30 exemplares no Mercado Municipal de Peixe de Cabo Frio. Em um dos casos mais graves, a concentração do metal pesado atingiu 1,980 mg/kg — praticamente o dobro do teto de 1 mg/kg permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para peixes carnívoros.

O Efeito Dominó dos Oceanos: Entenda o Risco

O que mais impressionou os pesquisadores do Instituto Federal Fluminense (IFF), UERJ, UFF e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM) foi o fato de uma espécie de médio porte apresentar mais contaminação do que alguns tubarões ou atuns maiores.

A explicação para isso está em dois fenômenos biológicos e ambientais:

  • Biomagnificação: O mercúrio não é eliminado pelo organismo. Quando um peixe menor consome algas ou sedimentos contaminados, ele retém o metal. Quando o bonito-pintado (um predador) come vários desses peixes menores, ele absorve o mercúrio de todos eles, concentrando o poluente no topo da cadeia alimentar.
  • A Ressurgência de Cabo Frio: A região é famosa por suas águas frias e ricas em nutrientes que sobem do fundo do mar (ressurgência), atraindo muitos peixes. No entanto, os cientistas suspeitam que essa mesma dinâmica oceanográfica esteja trazendo e redistribuindo o mercúrio depositado nas profundezas do oceano.

De onde vem esse mercúrio?

Como a região de Cabo Frio e Arraial do Cabo não possui um histórico de indústrias poluidoras pesadas que justifique esse cenário, os autores do estudo apontam para um culpado muito maior: a poluição global dos oceanos.

O mercúrio lançado na atmosfera por termelétricas, queima de combustíveis fósseis e mineração ilegal ao redor do mundo viaja pelas correntes de ar e chuva, terminando nos mares. Agências internacionais como a OMS (Organização Mundial da Saúde) já tratam a contaminação de atuns como um termômetro dessa crise planetária.

O que muda para o consumidor?

O mercúrio é uma neurotoxina perigosa. O consumo crônico de alimentos contaminados pode afetar o sistema nervoso central, causar problemas motores e cognitivos.

Atenção redobrada: Os riscos são significativamente maiores para gestantes, lactantes e crianças pequenas, uma vez que o metal interfere diretamente no desenvolvimento cerebral do feto e do bebê.

Diante dos dados, os cientistas não recomendam o banimento do peixe — que é uma excelente fonte de proteínas e ômega-3 —, mas defendem urgentemente:

  1. Monitoramento constante: A criação de programas públicos para testar os peixes que chegam aos mercados regularmente.
  2. Guias de consumo: Campanhas informativas que orientem a população sobre a frequência segura de consumo de peixes predadores (como cação, atum e o próprio bonito-pintado), especialmente para os grupos de risco.

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