Com mais de 400 exemplares capturados no sul da Bahia, peixe-leão acende alerta em Abrolhos
A captura de mais de 400 exemplares de peixe-leão (Pterois volitans) no litoral de Porto Seguro (BA) nas últimas semanas, e a confirmação de registros em Abrolhos aceleraram a implantação, desde agosto, do Plano Municipal de Enfrentamento contra a bioinvasão, elaborado pela prefeitura da cidade. Avistada pela primeira vez na região em junho, a espécie exótica tem origem do Indo-Pacífico. O peixe-leão não possui predadores no Atlântico, se prolifera com rapidez e ameaça provocar o colapso de populações pesqueiras e ecossistemas recifais na região.
O grande risco ecológico está na alimentação voraz do animal, que consome filhotes de diversas espécies nativas e crustáceos. O biólogo Carlos Hackradt, coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (Lecomar) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), explica a gravidade: “Ao predar filhotes de espécies comercialmente exploradas, há uma depleção das populações pesqueiras. Isso traz consequências graves para o ecossistema, afeta a economia da pesca e prejudica o turismo em recifes degradados”.
O pesquisador alerta para o risco do animal avançar por grande parte do litoral brasileiro. “A nossa costa possui uma plataforma continental extensa e cheia de recifes que servem de abrigo”, aponta o Hackradt. Segundo ele, as projeções indicam que o avanço do peixe-leão não deve parar na Bahia: “Esses animais são capazes de chegar até São Paulo, Paraná e até o norte de Santa Catarina”.
Ao todo, a ação entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (Semac) e pescadores da Colônia Z-22 recolheu 440 animais no litoral de Porto Seguro, dos quais 430 foram enviados congelados ao Lecomar/UFSB para análise de biometria e conteúdo estomacal. O plano prevê o pagamento de R$ 10 aos pescadores por peixe capturado e estuda inserir o pescado na rede comercial.
Hackradt explica que o consumo humano é viável: “O animal não traz veneno na carne. A substância fica armazenada em glândulas ligadas aos 18 espinhos, e a proteína é desnaturada com o calor no cozimento”. Sem registro científico de erradicação total da espécie onde ela se instala, o controle populacional e o monitoramento contínuo seguem como as únicas vias de manejo.
A preocupação também se estende ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, santuário ecológico que abriga a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul, onde a presença do peixe-leão já foi confirmada. Contudo, os pesquisadores reconhecem que ainda faltam dados consolidados para mensurar a dimensão exata do estrago. “A gente ainda não sabe a dinâmica que esse processo vai ter aqui. Acabou de acontecer, estamos construindo as primeiras informações no extremo sul para entender a gravidade e indicar às autoridades quais medidas são factíveis”, pondera o biólogo.
Imagem do banner: Exemplares de peixe-leão capturados no litoral de Porto Seguro, Bahia. Crédito: Lecomar – UFSB.

