O caminho de volta ao mar: como funciona o centro que resgata e reabilita tartarugas marinhas no Litoral Sul

O caminho de volta ao mar: como funciona o centro que resgata e reabilita tartarugas marinhas no Litoral Sul

Cram-Furg detalha como funciona o trabalho de resgate, tratamento e reabilitação de animais encontrados debilitados na costa gaúcha.

No Dia Mundial da Tartaruga Marinha, celebrado nesta terça-feira (16), o trabalho realizado pelo Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Cram-Furg), em Rio Grande, chama atenção para os desafios enfrentados por uma das espécies mais emblemáticas dos oceanos. 

Encontradas debilitadas nas praias do litoral sul do Estado, muitas tartarugas marinhas passam por um longo processo de reabilitação antes de serem devolvidas ao mar.

O atendimento é realizado pelo Cram-Furg, referência nacional na recuperação da fauna marinha e responsável pelo resgate, tratamento e reabilitação de animais encontrados em situação de risco ao longo da costa gaúcha.

Os resgates ocorrem principalmente após acionamentos feitos por moradores, pescadores, veranistas e equipes de monitoramento que percorrem a faixa costeira entre Mostardas e o Arroio Chuí.

Segundo a coordenadora do Cram, Paula Canabarro, os animais costumam chegar ao centro debilitados em consequência da ingestão de resíduos sólidos, do emaranhamento em redes de pesca, de doenças ou das condições adversas enfrentadas durante a migração.

A maior parte dos registros de tartarugas marinhas ocorre durante o verão. Nessa época, as águas mais quentes e a maior disponibilidade de alimento atraem principalmente indivíduos jovens para a costa gaúcha.

Atualmente, três tartarugas ainda estão em processo de reabilitação no centro, aguardando o retorno ao habitat.  Anualmente, cerca de 400 animais marinhos são atendidos no local, entre tartarugas, leões-marinhos e pinguins.

O centro não possui um levantamento consolidado sobre o número de tartarugas marinhas reabilitadas nos últimos anos, já que esse total varia conforme fatores como a ocorrência de pesca acidental, os encalhes registrados na costa e a presença desses animais no litoral gaúcho ao longo de cada temporada.

O verão é o período em que observamos uma presença maior de tartarugas marinhas no nosso litoral. Muitas delas utilizam essa região como área de alimentação, aproveitando a abundância de recursos disponíveis nas águas costeiras

PAULA CANABARRO

Coordenadora do Cram

Entre as espécies que utilizam o litoral sul gaúcho como área de alimentação e desenvolvimento, algumas são registradas com maior frequência.

Segundo o professor de Oceanografia Biológica da Furg, Eduardo Secchi, as espécies mais comuns na região são a tartaruga-verde (Chelonia mydas) e a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), que utiliza o Litoral Sul como área de alimentação e crescimento durante a fase juvenil, antes de atingir a idade adulta.

— Temos, de forma mais eventual, a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata). Elas utilizam a região fundamentalmente como área de alimentação —  comenta Secchi.

Apesar de muitas serem observadas em boas condições, outras acabam sofrendo impactos causados pela ação humana.

— Infelizmente, também é nessa fase que identificamos problemas relacionados à ingestão de lixo, especialmente plástico, e aos emaranhamentos em materiais de pesca. São situações que podem comprometer seriamente a saúde desses animais e exigir atendimento especializado — destaca a coordenadora.

No inverno, o foco dos atendimentos se volta principalmente aos pinguins-de-Magalhães, que chegam à costa gaúcha durante o período migratório, além dos lobos-marinhos que utilizam as praias da região para descanso.

— Cada estação tem suas características. No verão recebemos mais tartarugas marinhas, enquanto no inverno aumenta significativamente o número de pinguins e também de alguns mamíferos marinhos, como os lobos-marinhos. Por isso, nossa equipe precisa estar preparada para atender diferentes espécies ao longo do ano — afirma.

Segundo Paula, a diversidade de animais atendidos reflete a importância ecológica da faixa costeira entre Mostardas e o Chuí, considerada uma das principais áreas de ocorrência de fauna marinha do país. Os registros realizados durante os resgates também auxiliam pesquisadores a acompanhar o comportamento das espécies e identificar ameaças que afetam o ecossistema costeiro.

Como funciona o acompanhamento

Ao chegar ao Cram-Furg, cada tartaruga passa por uma avaliação clínica completa. O exame inicial permite identificar o estado de saúde do animal e definir o tratamento mais adequado. 

Dependendo do caso, são realizados exames laboratoriais, radiografias e outros procedimentos para investigar possíveis lesões ou problemas internos.

O trabalho de recuperação envolve uma equipe multidisciplinar formada por médicos-veterinários, biólogos, oceanógrafos, estudantes e voluntários. Durante a reabilitação, as tartarugas recebem alimentação controlada, medicações quando necessárias e acompanhamento constante para monitorar a evolução clínica.

A estrutura do centro conta com tanques de reabilitação equipados com sistemas de filtragem e controle da qualidade da água, além de laboratórios e espaços destinados aos cuidados veterinários.

Conforme o animal apresenta melhora, ele passa por etapas que simulam as condições naturais do ambiente marinho, permitindo a recuperação gradual da capacidade de natação e alimentação.

O tempo de permanência dos animais no Centro varia de acordo com as espécies. As tartarugas costumam ter um metabolismo mais lento, por isso, o processo é mais demorado.

— Cada animal possui um tempo de recuperação diferente. Nosso objetivo é garantir que ele retorne ao ambiente natural com condições de sobreviver e desempenhar seu papel no ecossistema — afirma Paula.

O objetivo final é sempre devolver o animal ao seu habitat natural. Antes da soltura, a equipe avalia se a tartaruga recuperou plenamente as condições físicas necessárias para sobreviver no oceano. Somente após essa confirmação ela é devolvida ao mar.

Além da recuperação dos animais, os atendimentos realizados pelo Cram-Furg também fornecem informações importantes para pesquisas científicas.

 As tartarugas funcionam como indicadoras da saúde dos ecossistemas costeiros, ajudando pesquisadores a identificar ameaças ambientais e compreender os impactos causados pela poluição, pela pesca e pelas mudanças nas condições oceânicas.

Data chama atenção para a conservação

Celebrado em 16 de junho, o Dia Mundial da Tartaruga Marinha busca conscientizar sobre a importância da conservação das espécies e dos ambientes marinhos. A data também serve para alertar sobre ameaças como a poluição dos oceanos, a pesca acidental e a degradação dos habitats naturais.

No Brasil, cinco espécies de tartarugas marinhas ocorrem regularmente na costa, e todas enfrentam algum grau de ameaça à sobrevivência.

Como agir ao encontrar uma tartaruga marinha

Ao localizar uma tartaruga marinha na praia, a orientação é manter distância, não tocar no animal e evitar aglomerações ao redor. A recomendação é acionar imediatamente o Cram-Furg ou os órgãos ambientais responsáveis para que uma equipe especializada avalie a situação.

— Nem toda tartaruga encontrada na praia precisa ser resgatada imediatamente. Algumas podem estar apenas descansando. Por isso, é fundamental que a avaliação seja feita por profissionais capacitados — orienta Paula Canabarro.

FONTE: GAUCHAZH

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