Disputa por data centers de inteligência artificial ganha força na América Latina
Disputa por data centers de inteligência artificial ganha força na América Latina, com Brasil e Paraguai em estratégias diferentes para atrair big techs, energia limpa, cabos submarinos e investimentos bilionários em infraestrutura digital de alta capacidade.
O Brasil entrou em uma nova etapa da disputa global por infraestrutura de inteligência artificial com o anúncio de US$ 1,2 bilhão, cerca de R$ 6 bilhões, em quatro novos data centers da Ascenty na região de São Paulo.
Com a expansão, a empresa avança no primeiro complexo do país projetado para cargas de IA em larga escala e reforça a posição brasileira em um mercado pressionado por energia, conectividade e proximidade dos usuários.
A ofensiva brasileira ocorre em meio à repercussão de um plano atribuído à norte-americana X8 Cloud no Paraguai, estimado em até US$ 50 bilhões ao longo de três décadas.
Na proposta paraguaia, a promessa é atingir até 5 GW para inteligência artificial, com apoio de energia hidrelétrica de Itaipu e Yacyretá, mas o avanço ainda depende de etapas regulatórias, contratos de longo prazo e execução gradual.
Apesar de o valor anunciado no Paraguai ser muito maior, executivos do setor avaliam que a comparação direta pode distorcer o tamanho real da disputa por infraestrutura digital na América Latina.
No caso brasileiro, os novos projetos da Ascenty já aparecem vinculados a contratos com grandes companhias globais de tecnologia, condição considerada decisiva para que empreendimentos desse porte saiam efetivamente do papel.
Segundo a companhia, grandes centrais só começam a ser construídas quando existe demanda contratada, o que reduz o risco de erguer estruturas bilionárias sem ocupação garantida por clientes de computação em nuvem e inteligência artificial.
Essa lógica ajuda a explicar por que o investimento próprio de R$ 6 bilhões tende a movimentar cifras ainda maiores, já que os clientes precisam instalar equipamentos de alto desempenho dentro dos galpões.
Pelos cálculos apresentados pela Ascenty, cada dólar aplicado na infraestrutura física costuma exigir outros cinco dólares em máquinas e sistemas, especialmente servidores, supercomputadores e equipamentos voltados ao processamento intensivo de IA.
Com isso, os clientes podem desembolsar mais de US$ 5 bilhões, ou cerca de R$ 30 bilhões, em equipamentos para operar dentro dos novos data centers brasileiros.
Sumaré concentra a aposta mais avançada em IA
No interior paulista, o principal projeto anunciado pela Ascenty é o Sumaré 3, concebido para suportar cargas de trabalho de IA em larga escala e ampliar a capacidade brasileira nesse mercado.
A unidade terá capacidade inicial de 90 MW, com possibilidade de expansão adicional de 90 MW, em um campus de 48 mil metros quadrados preparado para futuras ampliações e novas fases operacionais.
As obras começaram em março de 2026, enquanto a entrega está prevista para o terceiro trimestre de 2027, dentro de um cronograma voltado a clientes globais de tecnologia.
Com a nova estrutura, o polo de data centers da região de Campinas ganha reforço em uma área onde a empresa já opera unidades relevantes e mantém terrenos reservados para futuras expansões.
Além de Sumaré, a companhia iniciou uma ampliação em Vinhedo, município que abriga o maior data center da América Latina, segundo a própria Ascenty, e segue estratégico para novos projetos.
Na mesma região, o complexo pode receber outras fases, já que a empresa possui áreas disponíveis para erguer novas centrais de dados conforme a demanda contratada avance nos próximos anos.
Atualmente, a Ascenty se apresenta como líder latino-americana em data centers e conectividade, com presença consolidada no Brasil e projetos em diferentes estágios na América Latina.
Em maio de 2026, a companhia informou que os novos contratos de IA somam 150 MW e envolvem múltiplas empresas globais de tecnologia, embora nem todos os nomes tenham sido divulgados publicamente.
Brasil combina mercado interno, energia e conectividade
A vantagem brasileira não se resume ao tamanho do mercado consumidor, embora a escala da economia local pese na decisão de big techs que buscam infraestrutura próxima dos usuários finais.
Para aplicações digitais sensíveis, como transações financeiras, sistemas industriais, robótica, serviços em nuvem e plataformas de IA, a proximidade entre usuário e servidor reduz a latência, o tempo de resposta no processamento dos dados.
Executivos da Ascenty afirmam que um dado hospedado em São Paulo pode responder a um usuário brasileiro em cerca de 2 milissegundos, intervalo considerado importante para operações automatizadas.
Quando a informação está em servidores nos Estados Unidos, esse tempo pode chegar a 150 milissegundos, diferença pequena em escala humana, mas relevante para aplicações críticas e serviços que exigem precisão.
Outro ponto estratégico está na conectividade internacional, já que o Brasil abriga alguns dos principais pontos de chegada de cabos submarinos da América Latina, com destaque para Fortaleza, Rio de Janeiro e Santos.
Sem essa malha de cabos, projetos de grande escala ficam mais caros, mais lentos e menos competitivos, principalmente quando precisam processar dados com baixa latência e alta disponibilidade.
Também pesa a favor do país a disponibilidade de energia renovável, ainda que o desafio brasileiro esteja menos na geração e mais na distribuição até áreas aptas a receber grandes data centers.
Por isso, centros de dados de grande porte exigem linhas dedicadas, estabilidade elétrica e capacidade de expansão em locais próximos aos polos de conectividade, consumo e operação de empresas de tecnologia.

Brasil avança em data centers para IA enquanto Paraguai promete R$ 250 bilhões e disputa espaço com big techs.
No projeto de Sumaré, por exemplo, a Ascenty informou ter investido cerca de R$ 250 milhões em uma linha de distribuição de 32 quilômetros para levar energia da CPFL até a nova estrutura.
Esse tipo de obra mostra que a atração de data centers depende também de infraestrutura elétrica sob medida, além de contratos, terrenos disponíveis, conectividade robusta e condições regulatórias previsíveis.
Paraguai cresce, mas enfrenta limites estruturais
O Paraguai entrou no radar de investidores por combinar energia hidrelétrica, custos competitivos e interesse oficial em transformar excedentes elétricos em serviços digitais voltados a empresas de tecnologia.
Com previsão de até US$ 50 bilhões em 30 anos, o plano da X8 Cloud ampliou a percepção de que o país poderia disputar projetos antes associados naturalmente ao Brasil.
A escala prometida, porém, ainda contrasta com a infraestrutura disponível e com a ausência de um mercado doméstico comparável ao brasileiro, fator relevante para plataformas de nuvem e IA.
Como o Paraguai não possui saída para o mar nem pontos próprios de chegada de cabos submarinos, grandes operações dependeriam de conectividade internacional por rotas terrestres e exportação quase integral do processamento.
Chris Torto, CEO da Ascenty, contestou a ideia de que o Paraguai esteja no mesmo patamar do Brasil na disputa por data centers de inteligência artificial.
“Eu não acho factível. Primeiro, porque o problema lá é a quantidade de energia disponível, só de 1,2 GW. Aqui há dezenas de gigawatts. Lá não tem cabo submarino chegando, não tem mercado doméstico, vai exportar todos os dados”, afirmou.
Na avaliação do executivo, o país vizinho não aparece como destino provável para uma migração relevante de investimentos hoje mirados no Brasil, apesar do interesse crescente em novas regiões.
Segundo Torto, anúncios podem chamar atenção, mas o fator decisivo para a construção de data centers continua sendo a existência de contratos firmes com clientes capazes de ocupar a infraestrutura.
A avaliação não elimina concorrentes para o Brasil na região, mas desloca o foco para mercados considerados mais próximos na disputa por big techs e infraestrutura de nuvem.
No mapa regional, Chile e México aparecem como rivais mais próximos, enquanto mercados como Malásia e Finlândia competem em outras frentes globais, especialmente quando empresas buscam energia abundante, estabilidade regulatória e custos adequados para IA.
Redata pressiona debate sobre data centers no Congresso
Apesar do avanço dos investimentos privados, empresas do setor defendem que o Brasil poderia receber aportes maiores caso o Redata, regime especial de tributação para serviços de data center, fosse aprovado de forma definitiva.
Pela proposta, haveria suspensão de tributos federais sobre máquinas e equipamentos usados na implantação, expansão e manutenção dessas estruturas, medida considerada relevante para reduzir o custo inicial de grandes projetos.
O governo federal lançou o programa em setembro de 2025 por medida provisória, dentro da Política Nacional de Datacenters, em uma tentativa de atrair infraestrutura digital de alta capacidade.
Sem votação no Congresso, a MP perdeu validade em fevereiro de 2026, e a continuidade dos incentivos passou a depender de um projeto de lei em tramitação.
Na prática, o Redata antecipa parte dos efeitos esperados com a reforma tributária, cuja transição começa em 2027 e segue até 2032, período considerado longo por operadores do setor.
Para empresas de data centers, a desoneração reduziria o custo de importação de equipamentos de alto valor, justamente a parcela mais pesada dos investimentos em infraestrutura para inteligência artificial.
Enquanto o debate fiscal segue em Brasília, a Ascenty mantém 26 data centers em operação na América Latina, dos quais 21 ficam no Brasil, além de projetos em construção ou desenvolvimento.
A combinação entre mercado interno, energia renovável, cabos submarinos e contratos com grandes empresas estrangeiras ajuda a explicar por que o país segue no centro da corrida regional por IA.

