Economia Azul: do petróleo à internet, o impacto invisível do mar no cotidiano dos brasileiros

Economia Azul: do petróleo à internet, o impacto invisível do mar no cotidiano dos brasileiros

O mar está presente em grande parte das atividades que movimentam a economia brasileira, ainda que sua influência passe despercebida no cotidiano da população. Do petróleo extraído em plataformas offshore às comunicações realizadas por cabos submarinos, passando pelo transporte de cargas, pela atividade pesqueira e aquícola e pela geração de energia, diferentes setores estratégicos do País dependem diretamente do oceano.

Nos últimos anos, o avanço das discussões sobre segurança energética, mudanças climáticas e exploração e explotação sustentável dos recursos naturais ampliou o interesse mundial pela chamada Economia Azul, conceito formulado pelo economista belga Gunter Pauli para destacar o potencial econômico e produtivo dos oceanos associado à utilização responsável dos recursos oriundos do mar.

Nesse contexto, países com forte presença marítima passaram a enxergar o oceano não apenas como espaço de circulação e lazer, mas como ativo estratégico para o desenvolvimento econômico, a inovação tecnológica e a soberania nacional.

A discussão ganhou força em meio à corrida global por fontes de energia renovável, minerais estratégicos, infraestrutura digital e segurança alimentar. Setores ligados ao ambiente marinho passaram a ocupar espaço crescente nas agendas econômicas e geopolíticas internacionais.

Para o Subchefe de Estratégia do Estado-Maior da Armada, Contra-Almirante Sandro Baptista Monteiro, em rigor, o ambiente marinho sempre ocupou posição central na articulação entre as nações e no funcionamento da sociedade internacional.

O que se observa atualmente é uma renovada percepção do valor estratégico dos oceanos, especialmente diante dos impactos produzidos pelos conflitos contemporâneos sobre o comércio global e as cadeias logísticas internacionais. A interconectividade dos oceanos faz com que ocorrências registradas em pontos distantes do planeta, como tensões, ataques ou restrições à navegação em áreas estratégicas, a exemplo do Estreito de Ormuz, produzam efeitos imediatos sobre o abastecimento, os custos do transporte marítimo, os preços da energia e a estabilidade dos mercados internacionais.”

Para o Almirante, a fragilidade das linhas de comunicação marítimas evidencia a elevada dependência da economia mundial da livre circulação nos oceanos. “Ao mesmo tempo, intensifica-se a disputa por recursos, rotas e áreas de interesse estratégico, recolocando o ambiente marítimo no centro da competição entre Estados e da agenda internacional de segurança. Para o Brasil, essa realidade assume especial relevância em razão da Amazônia Azul e da forte dependência nacional do comércio marítimo. Trata-se de um espaço estratégico que demanda presença, vigilância e preparo compatíveis com sua importância para a soberania, para a proteção das infraestruturas críticas e para o desenvolvimento nacional.”

Economia Azul e o PIB do Mar

A Economia Azul abrange diferentes áreas ligadas ao oceano, como transporte marítimo, exploração de petróleo e gás, pesca, aquicultura, turismo, pesquisa científica, geração de energia e infraestrutura portuária. O conceito também considera a necessidade de conciliar crescimento econômico, preservação e conservação ambiental, responsabilidade social e uso consciente dos recursos marinhos.

Em um País com extensa faixa litorânea, a relação entre o mar e a economia vai além das regiões costeiras. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Amazônia Azul reúne cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de área marítima sob jurisdição brasileira.

A mensuração da chamada Economia do Mar também passou a ganhar espaço nas discussões econômicas nacionais. Em 2025, a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM) aprovou, durante sua 217ª Sessão Ordinária, o relatório final do grupo técnico PIB do Mar, coordenado pela Secretaria Nacional de Planejamento e Orçamento em conjunto com a Coordenação de Contas Nacionais do IBGE. O documento apresentou metodologia voltada à mensuração das atividades econômicas relacionadas ao oceano no Brasil, excetuando-se a atividade de óleo e gás natural.

O avanço dessa discussão ocorre em meio ao reconhecimento de que as atividades ligadas ao mar exercem impacto direto em setores como transporte, turismo, defesa, energia, pesca, aquicultura e indústria naval. Nesse contexto, estudos acadêmicos também vêm buscando dimensionar o peso econômico da chamada Economia do Mar no cenário brasileiro.

A professora doutora Andréa Bento Carvalho, do Instituto de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), desenvolveu estudo sobre a mensuração da Economia do Mar. Em tese de doutorado defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a economista estimou que, em 2015, as atividades ligadas direta ou indiretamente ao oceano já geravam R$ 1,11 trilhão em Produto Interno Bruto e R$ 1,18 trilhão em Valor Adicionado Bruto, empregando mais de 19 milhões de pessoas e gerando quase R$ 500 bilhões em salários.

Em palestra online, a pesquisadora Andréa Carvalho destacou que o crescimento populacional e econômico mundial vem ampliando a pressão sobre os recursos marinhos. “O momento é de expansão da industrialização dos oceanos, dado que os setores tradicionais da economia não suprirão a crescente demanda”, afirmou.

A especialista também ressaltou que o Brasil possui uma das maiores extensões costeiras do mundo, mas ainda enfrenta dificuldades para mensurar de forma precisa o impacto econômico do mar na economia nacional. Segundo ela, o chamado “PIB do Mar” engloba cadeias produtivas complexas e interligadas, cujo impacto se estende da infraestrutura logística e energética à pesquisa científica, à segurança marítima e ao abastecimento de mercados consumidores.

Outro ponto destacado foi o conceito de Blue Growth — ou crescimento azul —, modelo que propõe o desenvolvimento econômico associado à preservação ambiental e à integração entre governo, indústria, instituições científicas e sociedade. Para a docente, o desafio está em conciliar expansão econômica, conservação dos ecossistemas e gestão sustentável dos recursos marítimos.

Comércio e energia ligados ao oceano

Com cerca de 95% das importações e exportações brasileiras realizadas por via marítima, o transporte aquaviário ocupa posição central na logística nacional. Portos distribuídos ao longo da costa brasileira conectam o País ao mercado internacional e viabilizam o fluxo de combustíveis, alimentos, minérios e insumos industriais.

Além do comércio, o mar também exerce papel relevante na segurança energética brasileira. Em 2025, a produção nacional de petróleo alcançou recorde histórico de 3,770 milhões de barris por dia, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O pré-sal respondeu por quase 80% da produção nacional.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse por novas frentes ligadas à Economia Azul, como energia eólica offshore, biotecnologia marinha e mineração em águas profundas — áreas consideradas estratégicas por diferentes países diante da transição energética global.

Mar também conecta comunicações e abastecimento

Outro aspecto menos perceptível, mas igualmente estratégico, está relacionado às comunicações globais. Cabos submarinos instalados no fundo do oceano são responsáveis pela transmissão da maior parte do tráfego internacional de dados de internet e telecomunicações.

A infraestrutura submarina sustenta operações financeiras, plataformas digitais, sistemas de comunicação e serviços utilizados diariamente pela população. Especialistas apontam que a dependência global dessas redes transformou os cabos submarinos em ativos estratégicos para governos e empresas.

Para o Contra-Almirante Monteiro, no cenário internacional atual, o Poder Naval voltou ao centro da política de poder.

O Poder Naval exerce papel essencial na dissuasão de ameaças, na proteção do fluxo do comércio exterior, na garantia da liberdade de navegação e no respaldo concreto à ação diplomática dos Estados. Em um ambiente marcado pela crescente disputa por recursos marítimos, energia, pesca, cabos submarinos e áreas de interesse estratégico, as Marinhas tornaram-se decisivas não apenas para o combate, mas também para a proteção das linhas de comunicação marítimas, das infraestruturas críticas submarinas e da cadeia logística internacional.”

O Subchefe de Estratégia do Estado-Maior da Armada salienta que essa realidade torna-se ainda mais sensível quando se observa que mais de 80% do comércio mundial, em volume, é transportado por via marítima.

“Assim, qualquer perturbação relevante no ambiente marítimo, seja um conflito regional, um bloqueio de rota estratégica ou uma ameaça à infraestrutura submarina, pode produzir efeitos imediatos sobre preços, abastecimento, energia e estabilidade econômica em escala global.” 

A produção de alimentos também integra esse cenário. Atividades como pesca, aquicultura e transporte marítimo de cargas alimentícias contribuem para o abastecimento interno e para a geração de empregos em diferentes regiões brasileiras.

Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, a produção aquícola em Águas da União cresceu 20% em 2024, totalizando 148,5 mil toneladas.

Já a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) informou que a aquicultura superou a pesca de captura como principal fonte mundial de produção de animais aquáticos em 2022, marco apontado por especialistas como reflexo da crescente demanda global por alimentos e da necessidade de modelos mais sustentáveis de exploração dos recursos marinhos.

Amazônia Azul e desenvolvimento estratégico

Apesar da extensa faixa litorânea e da forte dependência econômica em relação ao oceano, o Brasil ainda possui baixa mentalidade marítima. A percepção do mar frequentemente permanece associada ao turismo e ao lazer, enquanto atividades estratégicas ligadas à energia, logística, alimentação, defesa e comunicações seguem pouco percebidas pela população.

O crescimento populacional, a pressão sobre recursos naturais e a necessidade de diversificação energética também ampliaram o debate sobre o manejo sustentável dos recursos marinhos. Nesse cenário, iniciativas ligadas à Economia Azul buscam conciliar desenvolvimento econômico, preservação e conservação ambiental, responsabilidade social e planejamento estratégico do espaço marítimo.

Nesse contexto, a Amazônia Azul ganha relevância não apenas sob o aspecto ambiental, mas também econômico, social e geopolítico. A extensa área marinha sob jurisdição brasileira concentra recursos naturais, rotas comerciais e estruturas consideradas essenciais para o desenvolvimento nacional e para a soberania do País.

Esse cenário ajuda a explicar por que atividades ligadas ao oceano vêm ampliando sua importância estratégica em diferentes partes do mundo. Da produção de energia à circulação de dados, passando pelo abastecimento alimentar e pelo comércio internacional, setores associados ao ambiente marinho ganharam protagonismo diante das transformações econômicas, tecnológicas e energéticas das últimas décadas. 

No Brasil, o avanço das discussões sobre a Economia Azul reforça a necessidade de integrar economia, inovação e uso sustentável dos recursos marinhos.

Fonte: Agência Marinha de Notícias

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