Uso de receitas do petróleo para segurar combustíveis avança, mas custo pode ir além da bomba

Uso de receitas do petróleo para segurar combustíveis avança, mas custo pode ir além da bomba

Especialistas avaliam proposta do governo e apontam limites do mecanismo anticíclico diante da alta global do petróleo

O governo federal enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei que cria um mecanismo para utilizar receitas extraordinárias do setor de petróleo com o objetivo de reduzir tributos sobre combustíveis. A proposta surge como resposta à alta internacional da commodity, impulsionada pelo agravamento das tensões no Oriente Médio, e busca aliviar o impacto ao consumidor sem violar as regras fiscais.

Pelo texto, receitas adicionais provenientes de royalties, participação especial, IRPJ, CSLL, dividendos e exportações poderão ser direcionadas para compensar cortes em tributos como PIS/Cofins e Cide. A medida tem caráter temporário e dependerá de aprovação legislativa, com vigência condicionada à persistência do choque externo sobre os preços do petróleo.

A lógica do governo é estruturar um mecanismo anticíclico: em momentos de alta do petróleo e aumento de arrecadação, abre-se espaço fiscal para reduzir impostos e amortecer a inflação dos combustíveis. Ainda assim, o desenho levanta dúvidas sobre sua eficácia prática e seus efeitos sobre o mercado.

Para Pedro Rodrigues, diretor do CBIE, a estratégia do governo enfrenta uma limitação estrutural: a formação de preços dos combustíveis é determinada por um mercado global altamente volátil. “Essa estratégia não resolve o problema. Talvez ela seja parte de uma solução, mas a gente tem que entender que o cenário hoje do mercado internacional é de preço alto dos combustíveis em razão da guerra do Irã”, afirma.

O especialista também chama atenção para um ponto central: a transmissão das medidas ao consumidor final não é automática. “Não existe uma certeza de que essas medidas vão ser refletidas no preço da bomba. No Brasil, os preços dos combustíveis são livres. O dono do posto pode praticar o preço que quiser, da mesma forma que o dono de uma padaria define o preço do pão”, opina Rodrigues.

Riscos para a Petrobras e para a oferta

Pedro Rodrigues também resgata o histórico recente para alertar sobre os riscos de políticas intervencionistas: “A gente já viu esse filme. A Petrobras chegou a ter uma dívida de 120 bilhões de dólares, sendo cerca de 50 bilhões ligados à política de segurar preços. Hoje, com as regras de governança, isso não é mais possível, mas ainda assim o investidor está deixando dinheiro na mesa, porque a companhia vende combustível defasado”.

Para o especialista, o maior risco atual está na oferta. “Nesse cenário, além da confusão no mercado, existe o risco de faltar produto. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome. Se você mexe demais na formação de preço, desorganiza a cadeia e tira previsibilidade, o resultado pode ser desabastecimento”, afirma Rodrigues.

Engenharia fiscal e limites do repasse

Do ponto de vista jurídico e fiscal, o professor de Direito Tributário, Henrique Mello, avalia que o governo tem ampliado o uso de instrumentos anticíclicos para lidar com o choque de preços, mas destaca a complexidade e os limites dessas medidas. “O PLP nº 114/2026 cria um mecanismo para contornar restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal, autorizando o uso de receitas extraordinárias do petróleo para compensar futuras reduções de tributos. A racionalidade é que a alta internacional do petróleo, ao elevar a arrecadação, gera espaço fiscal para desonerar combustíveis sem comprometer o equilíbrio das contas públicas”, afirma o advogado, que é sócio do escritório HMLaw.

Efeito incerto sobre preços

Apesar do desenho técnico, Mello ressalta que o impacto final sobre os preços é incerto e depende de fatores fora do controle do governo: “Redução de tributos, subvenções e redução de preço não são a mesma coisa. A tributação compõe o preço, mas cada elo da cadeia tem sua própria estrutura de custos e margem, e o benefício fiscal pode ser integralmente repassado, parcialmente absorvido ou diluído ao longo do tempo”.

Ele acrescenta que essa incerteza ajuda a explicar a resistência dos estados em relação ao ICMS. “Esse é um dos argumentos dos estados para se recusarem a instituir gastos tributários nesse contexto: não há garantia de que a renúncia fiscal se converta em redução efetiva de preços ao consumidor”, diz Mello.

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