Conheça a Praia de Atafona: A praia que o Brasil vem perdendo para o mar a muitos anos!

Conheça a Praia de Atafona: A praia que o Brasil vem perdendo para o mar a muitos anos!

Os danos ambientais em Atafona, no Rio de Janeiro, são causados por um processo de erosão costeira intensificado que está destruindo edificações e submergindo quarteirões da cidade. As causas incluem a elevação do nível do mar devido às mudanças climáticas, o aumento de ressacas e, principalmente, as alterações antrópicas no Rio Paraíba do Sul, como a construção de barragens, que impedem o envio de sedimentos necessários para o reforço da linha de costa.

Impactos da Erosão Costeira

Perda de áreas e destruição de construções:

A linha de costa avança constantemente, destruindo casas, ruas e memórias de Atafona, com mais de 500 edificações e dezenas de quarteirões já submersos no mar.

Mudanças drásticas na paisagem:

A cidade está sendo literalmente “engolida” pelo mar, resultando numa paisagem transformada com ruínas e escombros visíveis no litoral.

Deslocamento da população:

Moradores são forçados a deixar suas casas e são transferidos para novas moradias disponibilizadas pela prefeitura, recebendo auxílio financeiro.

Causas da Erosão em Atafona

Erosão costeira:

É um fenômeno natural agravado por fatores humanos, resultando na regressão da linha de costa.

Alterações no Rio Paraíba do Sul:

A construção de barragens no Rio Paraíba do Sul, que atravessa os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, impede a chegada de sedimentos importantes para a formação de praias e reforço do litoral.

Mudanças Climáticas:

A elevação do nível do mar e o aumento de ressacas intensas aceleram o processo erosivo, contribuindo para a vulnerabilidade da região costeira.

Outros Impactos

Perda de sedimentos:

O Rio Paraíba do Sul é o principal fornecedor de sedimentos que deveriam fortalecer o litoral, mas, com o fechamento da foz, a região se torna ainda mais vulnerável.

Impactos na vida marinha:

O desrespeito de alguns frequentadores à Portaria do IBAMA, com a circulação de veículos na área de desova das tartarugas marinhas, prejudica os ninhos e a preservação de espécies ameaçadas.

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Vítimas de um impacto ambiental lento e contínuo que vem destruindo a costa, os moradores do distrito de Atafona, em São João da Barra (RJ), buscam ressignificar suas relações com a cidade enquanto vivem a expectativa de um futuro incerto. Com o mar engolindo suas casas há mais de 50 anos, eles aguardam soluções para os impactos gerados na comunidade onde acontece um dos desastres ambientais de erosão costeira mais severos do Brasil.

Especialistas apontam como causas deste fenômeno uma soma de fatores, que incluem ações humanas e efeitos das mudanças climáticas numa região que, desde o início, teve uma ocupação habitacional desordenada em seu litoral.

Os primeiros registros que se têm notícia da erosão costeira em Atafona datam de 1954, na Ilha da Convivência, que hoje já foi praticamente toda engolida e seus habitantes forçados a deixar suas casas e buscar moradia em outros lugares.

Na praia de Atafona, o evento veio a ocorrer cerca de cinco anos depois, mas a destruição se intensificou na década de 1970 e não parou até os dias de hoje. A Prefeitura de São João da Barra calcula que o avanço do mar já destruiu 500 residências e comércios. Moradores locais e pesquisadores estimam que este número pode ser ainda maior e que o número de pessoas forçadas a se deslocar, inclusive migrando para outras cidades ou estados, tenha passado das 2 mil.

Sônia Ferreira, moradora de Atafona há mais duas décadas, viu o mar se aproximar aos poucos até derrubar o muro de sua casa em março de 2019, fato determinante para ela decidir tomar uma atitude após anos de espera. “No ano passado, o mar alcançou a minha rua e derrubou meu muro. Tive que colocar tapumes porque quero continuar vivendo aqui por mais um tempo. Eu já estou desmobilizando a casa e me mudei para uma casinha que construí nos fundos. Assim posso ficar aqui no meu terreno mais alguns anos até o mar ocupar tudo de vez”, diz.

No mundo, o número de deslocados por causas ambientais — tais como erosão costeira, incêndios florestais, inundações e deslizamentos — supera o número de deslocamentos por conflitos internos. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (IOM), um total de 295 mil novos deslocamentos por desastres ambientais foram registrados em 2019 no Brasil.

Os dados, porém, contabilizam apenas desastres ocorridos em eventos pontuais, como inundações, deslizamentos de terra e tempestades. Mas não em processos mais graduais como o de Atafona. No ano passado, de acordo com dados do relatório do IDMC (Internal Displacement Monitoring Center), o país computou 240 pessoas forçadas a se deslocar no Brasil por erosão costeira, mas a OIM acredita que haja subnotificação.

Por que o mar avança

Uma das principais causas apontadas pelo impacto em Atafona é a diminuição do fluxo de água do Rio Paraíba do Sul e seu consequente assoreamento, causados pela construção de barragens a montante.  Isto faz com que o Atlântico vença a queda de braço com o rio na foz, com efeitos no fluxo de correntes, no acúmulo de areia e lama no leito e no movimento das ondas na praia.

O desmatamento das matas ciliares ao longo de todo o curso fluvial também teria contribuído para o assoreamento do Paraíba do Sul, assim como o aumento populacional das cidades do entorno, que se abastecem da mesma água — como Campos dos Goytacazes, com meio milhão de habitantes, situada a apenas 40 km de Atafona

Processos geológicos naturais também são apontados como um dos fatores, em um ritmo muito lento, mas observa-se um consenso entre os pesquisadores e moradores de que a erosão costeira tem sido intensificada e acelerada em decorrência de um combinação de ações humanas e efeitos das mudanças climáticas, como a elevação do nível do mar.

De acordo com Gilberto Pessanha Ribeiro, engenheiro cartógrafo, professor do Instituto do Mar e coordenador do Observatório da Dinâmica Costeira da Unifesp, que pesquisa o caso de Atafona há 17 anos, é preciso que existam mais pessoas estudando o assunto. “Fizemos descobertas fantásticas sobre a diversidade da compreensão do fenômeno na comunidade. Surgiram inclusive questões antropológicas. É uma área do litoral que mistura ciência, afeto, misticismo e religião. As pessoas adoram aquele lugar. Existe muito afeto envolvido. Atafona se tornou um personagem”, destaca o pesquisador.

“As pessoas querem respostas categóricas, mas trata-se de um tema muito complexo para ter uma resposta simples com alternativas definitivas”, continua Pessanha Ribeiro. “A causa é uma junção de fatores. E as soluções também precisam ser múltiplas. A gente hoje vê um movimento não de solução definitiva, mas de coexistência com a questão e de aprendizado científico para educar a população e desenvolver o conhecimento na área.”

Recentemente, o canal da parte sul da foz se fechou pelo assoreamento do rio, agravando ainda mais a crise da pesca artesanal local e colocando em risco a sobrevivência da comunidade tradicional da região.

Por mais que o fenômeno já aconteça há mais de meio século, ainda se trata de um caso relativamente pouco conhecido pela opinião pública em geral, dada a sua relevância. A população local analisa que foram tímidas as ações de todas as esferas de governo ao longo da história. Atualmente, os moradores pressionam governos e instituições envolvidas na esperança de que sejam tomadas providências, ainda que não haja nenhuma solução óbvia ou rápida para solucionar o problema em curto ou médio prazos.

Mudanças climáticas aceleram a erosão

Para o geógrafo Dieter Muehe, um dos principais especialistas do país em erosões costeiras, o avanço do mar no Brasil não é apenas uma realidade, mas sim uma tendência. “Atafona é um hotspot de tendência continuada. A praia ganha e perde sedimentos, mas o balanço em Atafona não é equilibrado. A praia perto da foz perde mais do que ganha, o que causa a erosão”, explica. “E a lama também impede a mobilização do fundo marinho. O rio não joga no mar a quantidade de areias que deveria. Com as barragens, não há mais cheias excepcionais que expulsam grandes quantidades de areias para a plataforma. As mudanças climáticas aceleram o processo erosivo, uma vez que influenciam a frequência e intensidade de ressacas e tempestades mais extremas.”

Os efeitos mais perceptíveis da erosão costeira para a população brasileira, segundo ele, são aqueles que ocorrem em áreas urbanas, devido aos prejuízos materiais que ela causa. “O avanço do mar é, sim, uma tendência. A barreira arenosa já vinha se aproximando lentamente do continente ao longo de séculos de forma imperceptível. Observamos que hoje os efeitos de ações humanas no meio ambiente estão acelerando este processo. O que se constata é que o processo está tão veloz que um ser humano consegue perceber ao longo de uma vida. Uma pessoa que vive em uma área mais vulnerável no litoral pode até conseguir passar uma vida naquela moradia, mas talvez não dure para as gerações seguintes”, afirma o geógrafo.

Este foi o caso do jornalista local João Noronha, que perdeu em 2006 para o mar a casa que herdou de sua família. Autor de dois livros sobre Atafona, ele está com o terceiro pronto para ser impresso. “Nos anos 1940, Atafona se tornou conhecida por ser uma praia medicinal. Nos anos 1970, virou moda e foi palco de bailes da aristocracia fluminense em grandes clubes”, conta ele. “Inicialmente, eu relutava em tocar no assunto da erosão nos jornais para os quais escrevia. Tinha um certo bloqueio devido a um valor sentimental de quem passou pelo trauma de perder a casa da sua família. Semanas antes de minha casa cair, doei todos os materiais que estavam nela e me mudei para uma outra, bem menor, num outro bairro a 6 km de lá. O município não deveria ter permitido as construções na área costeira.”