Tartarugas estão associadas ao fenômeno das rochas plásticas em uma das ilhas mais isoladas do Brasil
A 1,1 mil quilômetro da costa do ES e sem presença humana, Ilha da Trindade é impactada pelo lixo que vem das correntes marítimas, da pesca e das tartarugas
Rochas plásticas que estão se formando na Ilha da Trindade, que pertence ao Espírito Santo. Foto: FAPESP/ Fernando Avelar Santos.
Nem mesmo um dos pontos mais isolados do Brasil, a Ilha da Trindade, que pertence ao Espírito Santo (ES), está imune à poluição humana. De acordo com o estudo publicado no Marine Pollution Bulletin, realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi encontrado na região um “novo tipo de rocha” feita de plástico — e as tartarugas influenciam esse processo de maneira involuntária.
Para a pesquisa, os cientistas estudaram as chamadas “plastistones” (rochas de plástico). Elas se formam quando resíduos de plástico — neste caso, principalmente redes e cordas de pesca de polietileno (HDPE) — sofrem algum tipo de aquecimento, como queima ou calor extremo, e se fundem aos sedimentos naturais da ilha (areia, conchas e rochas vulcânicas).
No Brasil, esse material foi detectado pela primeira vez no Parcel das Tartarugas, uma das praias da Ilha da Trindade. Para se ter uma noção, a ilha é tão distante que fica a 1,1 mil quilômetro da costa do Espírito Santo. De barco, a travessia leva cerca de 3 a 4 dias partindo do Rio de Janeiro ou Vitória. Sequer existe uma população civil residente, hotéis ou comércios na área.
Mesmo sem pessoas, o lixo chega à Ilha de duas maneiras: pelas correntes marítimas, que funcionam como um funil que transporta os resíduos até o local; e pelas atividades pesqueiras, que descartam ou perdem redes velhas no mar.
Como as tartarugas-verdes influenciam?
Além das formas já conhecidas de como o lixo chega à Ilha da Trindade, o artigo relatou uma outra preocupação: as tartarugas-verdes (Chelonia mydas). Acontece que os ninhos dessa espécie, que habita a região, são especialmente propícios para o plástico se acumular.
Tartarugas-verde acabam sendo “cúmplices” inovuntárias da proliferação de rochas plásticas. Imagem ilustrativa. Foto: yurakrasil/ Envato
As tartarugas-verdes que desovam lá passam a maior parte da vida migrando por todo o litoral brasileiro, que também enfrenta o cenário de poluição. Logo, elas podem carregar detritos presos aos corpos ou, como o estudo mostrou, ao cavar seus ninhos, acabam por desenterrar e reenterrar o plástico que trouxeram, misturando o lixo humano com a geologia da ilha.
Com isso, aumentam as chances dos plásticos permanecerem nas “raízes” da ilha, além de comprometer a conservação da espécie. Inclusive, o resíduo já apresenta sinais de “interação geológica” (enriquecimento por cálcio). Ou seja, o lixo está literalmente se tornando parte da história das rochas do local para os próximos milhares de anos.
Foto: FAPESP/ Fernando Avelar Santos
O mais preocupante é que, ainda em 2019, uma área de 12m² estava coberta por essas rochas plásticas e, com o tempo, as ondas quebraram essa mistura homogênea em pedaços menores, se espalhando por outras seis praias (até o momento). A erosão ainda faz com que elas liberem uma quantidade enorme de microfibras e microfragmentos tóxicos na areia.
Ainda segundo o estudo, a maioria do macro e microplástico se acumula justamente nas depressões em que as tartarugas enterram os ovos de ciclo em ciclo, o que ocorre anualmente. A ilha faz parte do Monumento Nacional das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do Monte Columbia, categoria de unidade de conservação integral.
Um dos requisitos para o Antropoceno ser considerado uma nova época geológica, algo ainda em debate, é justamente a existência de materiais produzidos por humanos soterrados no sedimento”, explica Fernanda Avelar Santos, primeira autora do estudo, sobre a consequência das rochas plásticas na geologia local.
Fora o impacto visível no ambiente, podemos presumir que há ingestão desse plástico pela fauna, não apenas as tartarugas, mas peixes, aves e caranguejos– destaca a pesquisadora
Segundo os cientistas envolvidos no estudo, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas para gerenciar os resíduos plásticos, além de ações coordenadas para a limpeza de praias, priorizando as que abrigam vida selvagem e que são diretamente afetadas pela poluição.